Marriages, na verdade, são um divórcio entre os Red Sparowes, que emprestam três dos seus membros a este novo projecto; entre todas as suas vontades e os limites impostos pela condição de se fazer post-rock numa altura em que apenas duas ou três bandas têm argumentos para o manter fresco; entre a pop e as estruturas gastas. Kitsune é um fluxo que volta a dar vagar ao rock harmónico cantado, de uns saudosos Gregor Samsa, por exemplo, que divide protagonismo entre as habilidades de Emma Ruth Rundle na guitarra e na voz, e a intensidade que Dave Clifford e Greg Burns conseguem dar à mais suave das melodias.

A falta de linearidade no EP de estreia dos norte-americanos não compromete o resultado final, mas é indiscutível a sua presença. O trio tem em Body of Shade um exemplo da sua capacidade de se movimentar pela pop mais melosa, cativante e embevecedora, que tem em White Shape uma antítese mais negra, mais pesada e, para fugir à aparente regra, instrumental. Isto sem excluir Ride in My Place, que abre o registo com uma força mais rockeira e focada na guitarra.

É, de resto, a amplitude da guitarra de Rundle que permite à banda expandir-se por onde o rock deixa – mesmo que isso implique reduzir a melodia à voz, ou à dissonância bela de uma guitarra mergulhada em delays, reverbs e distorções, deixando o resto para a secção rítmica, como acontece em White Shade.Kitsune é uma afirmação de pontos que não estavam assentes para quem acompanhou este trio nos seus outros projectos mais visíveis: a menina que veio substituir Josh Graham nos norte-americanos tem carisma para liderar um projecto e sensibilidade para o tornar absolutamente belo, mesmo que esse lado mais de cupido seja reduzido a momentos. São belos.

Resta saber onde é que os Marriages vão encontrar essa beleza de forma constante. Kitsune tem tanto de apaixonante quanto de intrigante – não só pelo seu som hipnótico, mas pelas inúmeras portas que nos abre. Futurologia é uma arte descartada neste exercício, mas todos sabemos que a única forma de alguém se casar é relacionar-se, da mesma forma que não é possível um divórcio sem um casamento. Não se trata de saber o que é possível, mas sim de perceber o que se vai fazer com tudo isso. Fica tudo em aberto para este trio.