Cambaleante e de semblante impávido, a Mark Lanegan parece-lhe indiferente subir ao palco do Hard Club ou do TMN Ao Vivo. Quiçá eternamente seráfico por ter sido uma das última pessoas a ver Layne Staley com vida (já o era antes, mas este facto deverá ter contribuído para o seu quase catatónico estado), o norte-americano transporta consigo um misticismo à Tom Waits, capaz de silenciar de imediato a sala portuense e o espaço lisboeta, ambos muito bem compostos para testemunhar nova aparição do ex-vocalista dos Screaming Trees em solo português – a última tinha sido em parelha com Greg Dulli, ou seja, com os Gutter Twins.

Tanto no Norte, como no Cais do Sodré, a actuação de Laneganacabou por ficar marcada por alguns problemas de som. Parecendo antever que as músicas de maior envergadura poderiam retirar espaço à sua portentosa voz, Mark optou por um set onde os slows, carregadinhos de blues à Desert Sessions, foram as figuras principais. O arrepio vertebral é inevitável quandoLanegan se faz ouvir pela primeira vez com When Your Number Isn’t Up e quando recupera One Hundred Days, uma pérola que dá vontade que Chris Goss entre palco adentro, sem aviso prévio.

Não nos deixemos ludibriar, porém. Mark Lanegan veio até Portugal para apresentar Blues Funeral, o seu último álbum, e foi ele que recebeu as honras dos dois concertos. Não é por devaneio, então, que a sua incursão ao novo disco não tenho demorado mais do que uma música a fazer-se ouvir, com The Gravedigger’s Songa marcar o ritmo para um concerto que se manteve linear, demasiado linear. Apesar de as malhas mais contemplativas serem um dos pontos fortes da carreira a solo do americano, a verdade é que não teria ficado mal puxar pelo lado mais rock e pulsante. O público, esse, não se teria certamente importado, já que foi em Hit The City ou Riot In My House que a ovação se fez mais vincada. Ainda assim, de Blues Funeral, é inevitável destacar as muito bem conseguidas Grey Goes Black e Ode to Sad Disco, com uma estrutura mais orgânica do que a oferecida em disco.

Pelo meio, espaço para Crawlspace (malha que colocou o calendário nos 90s, altura em que os Screaming Trees reforçavam peremptoriamente a fileira do grunge) e para uma Creeping Coastline of Lights, com a cover dos Leaving Trains a revelar-se um dos pináculos desta passagem de Lanegan por Portugal. Razões suficientes para exigir ao norte-americano o regresso ao palco, onde Methamphetamine Blues se voltou a mostrar como um dos elementares trunfos da sua discografia. Impenetrável, densa e mergulhada numa neblina de nicotina que teima em erguer-se, a alma de Mark Lanegan continua intacta e, mesmo num duplo concerto onde a bitola poderia ter sido mais elevada, o vocalista saiu com as divisas de vencedor.