Blues Funeral não faz jus, sonicamente, à proposta do título do álbum, mas antes àquilo que a carreira de Mark Lanegan nos tem trazido. A voz lúgubre do norte-americano continua carregada de algo negro, como sempre, e melodicamente o disco não é caracterizado por uma grande alegria. Mas a coesão também não será a palavra de ordem. Valem, contudo, grandes canções que o cantautor não se coíbe de criar de disco para disco.

Depois de uma pausa na sua carreira a solo em que se dedicou a explorar a beleza da voz feminina de Isobel Campbell, Lanegan tinha de passar a prova de fogo de conseguir construir um grande disco sem a intuição da escocesa. Com Blues Funeral, essa prova foi cumprida, mas o norte-americano saiu com algumas queimaduras da brincadeira. Canções como a faixa de aberturaThe Gravedigger’s Song e Riot in My House, com a veia rock a pulsar nas têmporas, contrastam intensamente com as investidas electrónicas e francamente mal sucedidas de Ode to Sad Disco eHarborview Hospital. Estes desvarios, ainda que não regulares no todo do disco, tornam o disco de difícil absorção, essencialmente por estarem fora do seu lugar – Harborview Hospital, principalmente, que não seria uma má canção noutro contexto.

Em Blues Funeral, Lanegan começa, talvez, a acusar o peso da idade, numa necessidade de equilibrar aquilo que faz melhor com algumas sonoridades mais recentes. Se nem sempre é bem a vida lhe corre bem, neste aspecto, nunca deixa de ser o Mark Lanegan perante o qual todos temos de nos prostrar. O homem, mesmo quando não acerta em cheio, faz uma pontuação dos demónios. A velha vida do Oeste Americano e o manuseamento do seis-tiros devem ser como andar de bicicleta.