Estou com vontade de vos contar uma história. Há coisa de sete anos trabalhava temporariamente em Bremen, não num acesso de mero acaso cósmico – como é que um puto português emigraria para uma cidade fermentada a gigantes de tijolo e não, sei lá, para essa Londres onde podemos acabar numa festa somali onde existe uma mulher para cada sete homens (já me aconteceu)? – mas porque a minha família materna vem de lá. Vivia com uma miúda polaca em Viertel e tinha por hábito enfrascar-me diariamente no Rum Bumpers, um bar pertinho de casa, que a partir de uma certa hora ficava com aspecto de quem ia receber os Motörhead. Mas os Motörhead nunca chegavam. Ali ficávamos a mamar álcool, os highlights da Bundesliga catrapiscavam meio nublados, vinham-me as lágrimas aos olhos quando passavam Birthday Partiday, tinha acessos urinários se ouvia Misfits.

A jugular de Bremen batia ali, fazia esquina além, havia quem gritasse “ó da guarda” em alemão quando o fígado já lhe pedia perdão e clemência – nem mais um golinho de Jagermeister ou a noite vai dar merda. Os dealers de coca passavam despercebidos, mas os espertos, como eu, conheciam-lhes as sobrancelhas, os gestos, os suores, a hormona palpitante de quem já não aguentava passar uma noite sem aldrabar um turista espanhol em mais de 100 euros. Ali, havia um fluxo freático de inocência, maledicência, um marxismo frustrado, um republicanismo cinzento, uma revolução por acontecer que tinha ficado entalada no mesmo sítio onde os Metallica haviam guardado o talento em 1988 – por algum motivo, a “One” simbolizava esse estaticismo de quem espera o que já não vem.

As caras substituíam-se regularmente. Havia um tipo local que trazia textos de Demócrito e gostava de me falar do atomismo entre garrafas de Leffe, mas muitos sentavam-se ali de passagem. Nesse grupo transeunte, conheci uma rapariga dinamarquesa que passeava um blusão Denim com um backptach de Sexdrome. Mesmo que eu não quisesse, o álcool obrigava-me a meter conversa. Assim foi. Tinha 21 anos, vivia em Copenhaga e andava por ali a conhecer Bremen, depois de já ter ido a Hamburgo seis ou sete vezes. A coisa alongou-se. Falávamos de punk, dos concertos que havia no Rote Flora, de ela acreditar que o “(GI)” dos Germs envergonhava qualquer outra banda de punk hardcore ainda hoje e, quanto muito, podia-se chegar lá perto, mas nunca acima do Darby Crash. Bêbado que nem um porco, cantarolei-lhe o ‘refrão’ da “Lexicon Devil” para ela perceber que estava a lidar com um profissional, mas o xeque-mate fez-se quando lhe disse que tinha em casa o primeiro 7” de Sexdrome, lançado há semanas pela Posh Isolation. Não acreditou, pensava que ninguém os conhecia fora de Copenhaga e que eu só dizia aquilo pelo blusão de ganga dela. “Ai é? Então vem a minha casa que eu mostro-to”. Xeque-mate. :)

Trocámos contactos e meses depois convenceu-me a ir a Copenhaga – “é a minha vez de te mostrar a minha colecção de vinil. De caminho, apanhas Sexdrome ao vivo”. Bremen fica a uma hora de avião e, com estadia à borla, não tinha razão alguma para recusar. Afinal, não havia só Sexdrome para ver: era uma cena organizada pela Posh Isolation e os Iceage, que nessa altura tinham só um EP também, adornavam a noite, mais Ashley Choke (power electronics fodido) e Le Fishy. Acontecia tudo na Lygten, que vista de fora parecia uma subway station dos arredores londrinos e por dentro um amplo armazém com o aspecto fossilizado de um pós-industrialismo choco, como se quem por ali estivesse fosse celebrar o nascimento do post-post-punk. O second coming de alguma coisa que misturasse o street punk, o UK82, o existencialismo poetizado pelo Curtis e o hardcore norte-americano cheio de vontade de esticar a corda só para ver se ela partia.

Havia uma intimidade não declarada entre bandas, entre público, um compromisso não assinado entre partes, que fazia daquela noite uma comemoração endémica, autoimune, que haveria de acontecer que os presentes quisessem quer não. A coisa ia dar-se. Cantar-se-iam os parabéns sem palavras, sem sorrisos, de testas raptadas pelos gorros, brindar-se-ia a uma scene que era a todos os elementos externos – ou seja, eu – evidente. Eles, plateia e músicas, não assumiam nada disso. Mas havia combustível naquele armazém. Combustão. Cheirava a querosene imaterial, havia garrafões de flogística para fazer derreter o pâncreas a Copenhaga.

E derreteram. Pâncreas. Esófago. Vesícula. Matéria encefálica. Membranas multíplices. Ali, Copenhaga ficou de bolsos vazios, corpo gangrenado, esperança tolhida por duas locomotivas sem freio, Iceage e Sexdrome. Alimentadas pela adolescência sempre inconsequente, por um Frankstein com cabeça de GG Allin e espírito beat poetry meets Thomas Ligotti, a transpirar aquele fervor a que se lhe reconhecia caparro suficiente para sair de Copenhaga e passar a ferro as caves do mundo.

Foram-se sete anos. Os Marching Church não existiam naquela noite, mas são hoje consequência dela. A consumação madura, com vértices angulados, desse terror poético que o niilismo gosta de regar à mão, até que a autoaceitação (não misturar com conformismo) permite descobrir verdade no ridículo. Eu vou vê-los hoje a Londres. E vocês faziam boa figura se os vissem este fim-de-semana aí em Portugal.