Quando os olhares horizontais dos dois homens vencedores da I Internacional, do exilado parisiense anti-burguês acompanhado dos respectivos discípulos e do revolucionário cultural apareceram em pano de fundo era fácil de perceber que a aparição de Mão Morta em Almada iria ser marcada pelo mais recente álbum dos trintões bracarenses, “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar”. Sobretudo quando os rostos do actual (e habitual) alinhamento da banda substituíram as figuras já descritas e remeteram para a imagética presente no vídeo do single desse mesmo álbum.

Assim, não espantou que o arranque fosse de “Irmão da Solidão“ precisamente o tema que marca o início da transformação do cidadão em revolucionário descrita no último trabalho de Mão Morta. Seguiram-se alguns clássicos com especial destaque para uma interpretação particularmente feroz de “Berlim”.

A sequência inicial foi paradigmática do que foi a viagem do dia de finados: a melhor selecção do último álbum intercalada com vários temas incontornáveis mas nem sempre óbvios. Neste campo, destaque para a omissão de “1º de Novembro” cuja melodia mais conhecida foi replicada constantemente (e outros “entes”…) mas que por motivos de alinhamento da banda (o baterista foi Ruca de Pluto e SuperNada em virtude da lesão de Miguel Pedro) não foi ensaiada. Repetindo a ideia: Mão Morta nunca foi uma banda dada a obviedades e daí serem quem são.

A vertigem constante em que a banda se move e valoriza foi, de resto, o principal ingrediente. Particular destaque para temas como “Pássaros a Esvoaçar” que, além de teatralmente apelativa, remeteu para o material da banda no início do novo milénio e que demonstrou na perfeição que a versatilidade temática não enfraqueceu nada a capacidade criativa de Adolfo e Cª.

Não admira pois que quando o último terço do concerto arrancou com a novíssima “Hipótese do Suicídio”, se tenha integrado perfeitamente em alguns dos temas mais emblemáticos e expansivos do reportório da banda como “Lisboa”, “Anarquista Duval” e já em modo de encore, “Velocidade Escaldante” cujo magnetismo rompeu a sequência mais agressiva até então.

O final com “Véus Caídos” e “Horas de Matar” deixou alguns capítulos para visitar mas quando se pensa no que continua a ser a existência de Mão Morta, tais anseios parecem pífios e insignificantes tal como Adolfo foi relembrando durante todo o concerto. Convém ouvir…

Alinhamento

“Irmão Da Solidão”
“Quero Morder-te As Mãos”
“Oub’lá”
“Berlim”
“Histórias Da Cidade”
“Pássaros A Esvoaçar”
“Barcelona”
“Vamos Fugir”
“Hipótese Do Suicídio”
“Lisboa”
“Anarquista Duval”
“Velocidade Escaldante”
“Véus Caídos”
“Horas de Matar”