Foi preciso esperar que completassem 28 anos de carreira para que Setúbal tivesse oportunidade de assistir a um concerto dos Mão Morta, que tiveram honras de encerrar o Festival FUMO. A espera, que não precisava de ter sido tão longa, foi recompensada com um espectáculo que não defraudou expectativas. Excepto talvez a de um tipo muito obstinado (e provavelmente muito bêbado) que pedia, entre todas as músicas, que tocassem a “Budapeste”. Adolfo disse-lhe que se estava lá para ouvir a “Budapeste”, a porta da saída era ali — e apontou (na direcção correcta) —, porque não a iam tocar.

O alinhamento do concerto — que foi exactamente igual no dia seguinte, em Lisboa, no Festival Silêncio — percorreu a maioria da discografia da banda bracarense, visitando alguns clássicos comoTu Disseste, que foi a primeira que tocaram, Arrastando o Seu Cadáver, Oub’Lá ou Cão da Morte. Houve ainda espaço para alguns temas do mais recente Pesadelo em Peluche, com Adolfo a meter a mão por dentro da camisa, simulando um coração palpitante durante a Novelos da Paixão, e um tema que se estreou ao vivo: A Ver o Mar, de uma compilação chamada À Sombra de Deus (que vai no volume 4), de que ninguém quer saber porque é só de bandas de Braga. Não se ouviu a Budapeste, mas ouviu-se a “Barcelona”, do mesmo disco. O tipo obstinado deve ter seguido o conselho de Adolfo e fugido “por uma ruela da arcada” (porque deixou de se ouvir o seu insistente pedido) dos claustros do Convento de Jesus, que serviram de palco perfeito para o primeiro encontro dos Mão Morta com o público setubalense.

Extremamente profissionais, os músicos cumpriram sempre. Por esse profissionalismo, e por serem quase sempre muito contidos, parecem às vezes pertencer a um universo diferente do de Adolfo Luxúria Canibal, mas como é nele que se centram as atenções, a coisa passa despercebida. O vocalista, sempre muito cordial nos agradecimentos ao público, reiterando o prazer de estar finalmente em Setúbal (“Já só falta Santarém”), permitia-se alguns momentos de desvairo tresloucado, como a dança Ian-Curtis-zombie-com-Parkinson em Arrastando o Seu Cadáver, o quase arrancar de cabelos em Destilo Ódio, ou os sons guturais que fecharam o concerto em 1.º de Novembro.

Houve direito a um primeiro encore, com três músicas, culminando com a magnífica Cão de Morte, e um segundo encore, já só para tocarem a 1.º de Novembro. Este esquema de saída de palco e regresso foi escrupulosamente repetido no concerto de Lisboa, no São Jorge, com Adolfo dizendo, na segunda vez que voltaram, que iam tocar só mais uma e depois voltavam finalmente para Braga. Parece que os encantos da capital não seduzem o Canibal.

Depois do concerto do FUMO, fui beber um copo ao La Bohème, o único bar que interessa em Setúbal, e até aqui os Mão Morta vieram atrás de mim. Sabendo já que os ia ver no dia seguinte, temi, por momentos, que quisessem também vir dormir comigo. Desta parte da noite, há dois factos curiosos. Primeiro, que o Adolfo é um menino, porque bebeu um chazinho. Segundo, que o Paulo, o dono do bar, é uma pessoa azarada. Há vários anos que frequento o La Bohème e nunca lá tinha estado sem que o Paulo lá estivesse. Pois nesta noite, ele, que é um grande fã dos Mão Morta, não estava.

No dia seguinte rumei a Lisboa para repetir a dose. É certo que o concerto foi, basicamente, igual (a mesma roupa, a mesma mão dentro da mesma camisa, a mesma dança zombie, os mesmosencores, até o mesmo pedido para ouvir a “Budapeste” — muito mais educado (sic), contudo, do que o setubalense, segundo Adolfo), mas houve algumas coisas novas que merecem ser referidas. Por um lado, em Setúbal estávamos de pé, podíamos saltar, dançar, voar sobre o público (houve quem tentasse, sem grande sucesso), e em Lisboa sentados, o que faz do primeiro melhor. Por outro lado, em Lisboa estava com a minha namorada, o que faz do segundo melhor. (Também podia acrescentar que em Setúbal o som, sobretudo da voz, esteve um pouco melhor, mas que a iluminação de palco foi muito inferior à de Lisboa.)

Além disso, houve dois extras no espectáculo do São Jorge. Primeiro, uma espécie de banda de abertura, que era na verdade uma actuação de spoken word do britânico Joshua Idehen. Com um ritmo semelhante ao rap, mas sem qualquer acompanhamento musical, e com uma forte carga humorística, Joshua actuou cerca de vinte minutos, num espectáculo interessante, mas descontextualizado. A sua actuação antes dos Mão Morta não fez muito sentido. Teria ficado bem melhor no Musicbox, inserido numa noite com espectáculos que combinassem melhor com o seu.

Depois vieram os Dead Hand (como disse Joshua), que também trouxeram uma novidade relativamente ao concerto do dia anterior. Começámos por ouvir Adolfo Luxúria Canibal lendo versos de Al Berto, sem acompanhamento musical, mas com acompanhamento visual. Foi bonito e serviu para atenuar um bocadinho a discrepância entre a primeira actuação da noite e a segunda. Foi um bom prelúdio para o concerto, de que já não volto a falar porque foi igual ao de Setúbal. Resta dizer que os Mão Morta são grandes e que o Adolfo é o maior, mas isso já vocês sabem.

Conteúdo produzido em parceria com a Orgia Literária