O Coliseu de Lisboa foi o palco de mais um assalto dos Mão Morta ao sector dos lazeres, desta feita com o propósito de celebrar pela primeira vez ao vivo o seu mais recente registo, Pesadelo em Peluche. Numa expressão da sua conhecida simpatia, uma das primeiras frases com que Adolfo interpelou os presentes – numa sala que, sem estar a abarrotar, estava bem composta – foi, nada mais nada menos, que“Oub’lá qu’é que ‘tás a fazer? Quero é que tu te bás foder!”. Apesar de ser difícil encontrar uma forma de dar as boas vindas mais oportuna, todos ‘tavam ali a fazer o mesmo: à procura de uma grande noite de Rock’n’Roll. Como augurou esta entrada, seguida de E Se Depois, só por má vontade alguém saiu desiludido.

Num concerto que durou perto de duas horas, os Mão Morta rememoraram a sua longa existência num vaivém constante em busca do equilíbrio entre o passado e o presente. Se o concerto começou com duas das primeiras músicas da carreira da banda, à terceira saltou até ao recém-lançado Pesadelo em Peluche, com Teoria da Conspiração, iniciando assim a maior sequência de músicas novas, só interrompida pelas enormes Tu Disseste e Budapeste. As primeiras impressões quanto ao resultado destas músicas ao vivo ainda não são, nem podem ser, muito precisas. Enquanto músicas como O Seio Esquerdo de R.P.Como um Vampiro (com a presença de Fernando Ribeiro, dos Moonspell) e o single Novelos da Paixão agitaram a plateia e revelaram que já muitos sabem as letras, outras das novidades, como Penitentes Sofredores ou Fazer de Morto, recomendado por Adolfo como um acto “sempre salutar e higiénico”, não conseguiram provocar o mesmo entusiasmo, parecendo mesmo ser o público a agarrar a banda nos momentos mais mortos ao bater umas palminhas para acompanhar. De facto, as músicas novas pareciam em alguns momentos esfriar a sala, mas fica por perceber se se deve ao pouco tempo de degustação do álbum por parte da audiência ou se é sua característica intrínseca. A desajudar esteve também a má qualidade do som em alguns momentos, com um certo desequilíbrio nas guitarras a fazer com que se perdessem muitos pormenores das músicas.

O regresso à incontornável latrina irrespirável, com Em Directo (Para a Teelvisão) eVamos Fugir, ou a clássicos como AmesterdãoCão da Morte e Anarquista Duval, despertou novamente o público e trouxe de volta Adolfo Luxúria Canibal, com a sua característica dança de corpo a ser baleado por rajadas de metralhadora – o que não o impediu de se entregar com afinco à sabotagem divertida do solo de Vasco Vaz emBarcelona. No auge deste maior frenesim, a banda abandonou o palco pela primeira vez para um brinde final de três encores – mais uma vez dividido entre o novo registo e alguns êxitos do passado, como 1º de Novembro (como sempre muito pedido) ouCharles Manson.

Triturando isto tudo na batedeira da conclusão, o que obtemos é um concerto com osMão Morta na melhor forma dos últimos tempos, apesar de isso não ter sido suficiente para deitar o Coliseu abaixo, como teria sido bastante provável há uns anos atrás. Vagueando com mestria entre os êxitos passados e as novidades, nunca perderam o controlo do concerto e deixaram claro porque é que não há mais nenhuma banda em Portugal que chegue perto do que fazem e fizeram. Além disso, a impressão que Pesadelo em Peluche deixou ao vivo, apesar do que eu disse atrás, não compromete de maneira alguma o balanço positivo do registo em CD. Tenho até uma observação a fazer a esse respeito: por que raio não tocaram Metalcarne quando tocaram quase todas as músicas do novo álbum? Conto com o próximo pesadelo em peluche ao vivo para experimentar essa fusão. Por agora, fica o registo de mais um momento memorável na história deste autêntico monumento do Rock e das palavras.