Lisboa estende as suas veias bem para lá daquilo que reluz nos guias turísticos. Lisboa esconde ruelas estreitas, paredes empedernidas e uma atmosfera sufocante – que mais soturna se torna quando as nuvens decidem silenciar o sol. Num desses infinitos ermos, junto à melting pot que é o Martim Moniz, deu-se azo a uma ressurreição traçada com linhas crust: os M.O.T.Ü. estão de regresso, dois anos depois de se terem separado.

Foi numa exígua e envelhecida sala, ainda com resquícios dos Santos Populares, que os M.O.T.Ü. voltaram a ligar a corrente que os alimenta. Som alto, bem alto (para tormento dos vizinhos) e um feedback desafiador, que serviu como tiro de partida para uma descarga que teve tanto de boa, quanto de malévola, quanto de surpreendente.

Boa porque os M.O.T.Ü. mantêm a qualidade intacta. É crust, com tudo o que isso implica: uma marcha veloz, suja, que bem se entrelaça com as mudanças repentinas para uma postura sludgy, quase como se os His Hero Is Gone tivessem uma personificação portuguesa. Malévola por motivos óbvios: os cinco músicos não trazem esperança, nem um pingo de positividade. Pelo contrário, os M.O.T.Ü. são pérfidos e isso nota-se na postura de Pedro Roque (vocalista e, para os mais distraídos, fotógrafo aqui da casa), que encara o público com um olhar possesso, espicaça-o com empurrões e desafia-o para o caos. E, por fim, surpreendente já que, com apenas dois ensaios, a banda conseguiu apresentar-se oleada.

Apesar do curto set, os M.O.T.Ü. convenceram as dezenas que se deslocaram ao Largo da Severa para testemunhar o regresso dos lisboetas. E notou-se que, de facto, a grande maioria dos presentes esteve lá para ver os portugueses. Quando os Crimen, a banda mexicana que ser perfilhava no cartaz junto aos M.O.T.Ü., começaram a desfilar o seu punk bem intencionado, mas um tanto ou quanto trôpego, o entusiasmo decresceu. Não foi um mau concerto, mas esteve bem longe daquilo que os crusters nacionais conseguiram.