No que concerne ao hardcore norte-americano, Boston é uma das cidades mais proeminentes. Do agressivo (em excesso, muitas vezes) beatdown, ao straight edge, a capital de Massachusetts deu aos Estados Unidos, e ao mundo, algumas das bandas referência do estilo. Entre elas, é impossível não mencionar os American Nightmare (ou Give Up The Ghost, se preferirem), que, de entre o infindável lote de grupos que pululavam a cena de Boston nos late 90s, colocavam uma dose suplementar de entrega e crueza emocional. E isso valeu-lhes o estatuto de lendas, inspirando, até, os conterrâneos Converge a enveredarem por um caminho mais melódico.

Pois bem, os Loma Prieta são da Deathwish Inc., editora que osConverge ergueram com os dividendos do seu justificadíssimo sucesso. E, não, não é por mero acaso que esta banda pertence ao cartel de Bannon e Balou. Não são de Boston (são de San Francisco, Califórnia, Estado que inclui também a vila montanhosa de Loma Prieta, vítima de um terramoto em 89), mas a emoção e sinceridade com que alicerçam a sua carreira desde 2005 tem-lhes valido a destrinça no campo do hardcore/screamo norte-americano. I.V., o seu terceiro álbum de carreira, é o exame final de admissão na classe: a nota obtida dificilmente poderia ser melhor.

É que I.V. transporta consigo todas as vísceras do screamo à Pg.99, embrenhadas num instrumental marcadamente mais empedernido, quase como se Kurt Ballou lhes tivesse incutido as linhas do tão em voga “entombedcore”, que tem patrocinado a ascensão de nomes como os Black Breath ou os Nails. Atenção, não quer isto dizer que o disco esteja estilisticamente nesse campo; mas, sim, nota-se uma influência, seja no tom conspurco das guitarras e do baixo, seja nalgumas partes rítmicas quase a abraçar a demência dos The Chariot (final de Torn Portrait) ou o caos grind/math em Trilogy – faixa que se divide, lá está, em três partes: Momentary, Half Cross e Forgetting.

Sumamente, os Loma Prieta não se ficam pelos berros nascidos nas entranhas e pelos riffs a apelar ao lado mais melódico do hardcore. I.V. mostra uma banda que decidiu caminhar em direcção a um som mais feroz e negro, perto de um abordagem crust, fazendo provavelmente deste disco o melhor da carreira dos norte-americanos. E tal mudança não pode ficar dissociada da entrada do grupo na Deathwish Inc.