Quem disse que o álcool só faz pior com o passar dos anos, certamente que não pensava nos Linda Martini, ou não esperava uma pomada como “Turbo Lento” nesta altura do campeonato. Torcendo a metáfora dos embriagados, admita-se que o registo mais recente da banda eternamente de Queluz é um caso sério de punk maduro, como um bom malte deve sempre ser.

No espaço de três músicas, as primeiras do full-length, os Linda Martini conseguem sintetizar o melhor do que fizeram ao longo de uma carreira sólida. De EP em EP, o quarteto desenvolveu o punk, onde começaram e onde acabam por regressar, que faria de “Casa Ocupada” um sólido regresso e um claro progresso em relação a “Olhos de Mongol”. Neste “Turbo Lento” fica claro, caso não tenha ficado até aqui, que o punk, ou hardcore, dos Linda Martini não é esteticamente by the book, mas iniciativa de não ter limites dos Clashs, Refuseds, At the Drive-Ins e Fugazis destaca-se na criatividade da banda – ouça-se, em “Tremor Essencial”, “não queiras ser como toda a gente, não queiras crescer de repente”. Ao terceiro disco temos um tento com a pica juvenil do hardcore a ser constantemente desafiada pela matemática ambiental do post-rock, numa relação quimicamente simbiótica.

O combo “Ninguém tropeça nos dias”, “Juárez” e “Panteão” fazem a viagem introdutória completa aos Linda Martini de hoje, com ideias directas, ruidosas, mas igualmente ponderadas em jogos de guitarras e de vozes. “Sapatos bravos” e “Febril” vão mais obviamente às raízes da banda, com melodias inteligentemente freadas com suaves distorções, que dificilmente não passam por puras odes ao bom hxc pleno de fúria (justifica-se tão bem o coro em “Febril” que nos grita “tenho o sangue a ferver”).

A mensagem impressa de forma óbvia com o loop que fecha “Volta”, o mesmo que arranca com “Ninguém tropeça nos dias”, é a de que a segunda rotação se justifica. E a terceira, e por aí em diante. “Turbo Lento” é a prova cabal de que a vontade punk de se fazer música sem um balizamento não é como o punk cervejeiro: fica melhor com as tentativas e com o passar do tempo. Assim vão, e bem, os Linda Martini de hoje.