Desde que o mundo viu John Travolta a dançar freneticamente ao som dos Bee Gees nos idos de 1977 que a expressão “Febre de Sábado à Noite” nunca mais foi a mesma. E se em 1977 era significado de casa cheia ao som do boogie-woogie dos irmãos Gibb, ontem no Musicbox foi sinónimo de concerto dos Linda Martini. Começa a ser difícil vislumbrar em Portugal uma banda que arraste tanta gente para os seus concertos. Pelo menos de forma tão devota e intensa.

Agora em formato quarteto, os Linda Martini são uma das maiores e mais próprias entidades da música portuguesa. A entrega sónica ao tema de abertura (Elevador) deixa bem claro que eles não estão aqui para brincadeiras. E o público também não: para onde quer que se olhasse, parecia que toda a gente sabia a letra. Esta gente não anda aqui a brincar.

Ao contrário de Olhos de Mongol, o novo disco mostra uma faceta mais directa e menos espacial, mas a música continua a soar e a soar brilhante. Carregados de um sentimento trágico – entre a verdadeira tragédia tocada nas guitarras, ou a nostalgia que a voz deixa muitas vezes emanar -, temas como Mulher a Dias ou Dá-me a tua Melhor Faca são mais que suficientes para arrebatar até o mais incauto dos ouvintes. A emoção contida em cada tema dos Linda Martini é quase indescritível.

Passando por todos as edições, os Linda Martini brindaram a plateia com EfémeraAs Putas Dançam Slows e Este Mar e fica bem evidente que esta é uma banda feita para viver o palco. Sim, viver o palco e também no palco. Mas a diferença da primeira para a segunda frase, é que há já algum tempo que não se vê por estas bandas gente que se entregue de forma tão intensa e vivida à música que faz. É por isso que um concerto de Linda Martini é uma experiência que vai para além do típico “ouvir o CD tocado num PA decente”. Os ambientes são explorados de forma inteligente e do estado mais contemplativo é fácil passar para uma disposição quase agressiva e daí para uma atitude mais apaixonada. Uma montanha-russa de emoções que descrita parece desconexa, mas vista e vivida, faz todo o sentido do mundo.

Há que fazer uma vénia ao público, que soube empenhar-se devidamente e ajudar a que a comunhão entre aquele pequeno palco e as centenas de pessoas que enchiam o recinto fosse totalmente palpável. A sério, podia-se tomar o pulso ao ambiente com os primeiros minutos de ‘Amor Combate’, que deu início a uma sequência arrebatadora com Cronógrafo e Partir Para Ficar.

Ora, por esta altura a noite estava ganha: a banda esteve intocável e empenhada como poucas, o público estava conquistado, sabia as letras de cor e salteado e o ar de satisfação revestia as caras de todos. Mas ainda havia mais: o pseudo-final ficou a cargo de Amor é não haver polícia, mas faltavam dois temas. Este Mar foi o primeiro,Cem Metros Sereia veio a seguir. O hino de uma geração nascida na década de 90, (“Foder é perto de te amar” tem o seu quê de romântico, admitamos), escrito e gritado um pouco por todas as redes sociais e entoado a plenos pulmões pela banda, público e alguns amigos que subiram ao palco, criou a verdadeira apoteose.

Que nunca se perca a energia da banda, nem a aura que se cria nos seus concertos. Que continuem a gritar-se as letras, a sorrir-se de satisfação. E que se faça isso mais vezes, em mais concertos, em mais sítios. Já ninguém se pode queixar da música portuguesa, cada vez mais forte, própria e com várias razões de ser.