Que os Linda Martini são uma das grandes bandas portuguesas de rock (e talvez a melhor ao vivo), não há grandes dúvidas. QueGisela João é um dos nomes mais fortes da nova geração de fadistas, sem dogmas ou conservadorismos, também não. A questão estava em perceber como seria juntá-los em palco, dado que os estilos musicais são tremendamente díspares. Como, em comum, haverá pouco mais do que fazerem música com um apelo emotivo forte, a expectativa era de que uma subliminar ligação espiritual proporcionasse o impacto desejado. Com alguns percalços, a prova foi superada.

Comecemos pelo pior: a presença da lindíssima Gisela João na fase inicial de “Estuque” não fez grande sentido, pareceu algo submissa e desconfortável e soou a figura meramente decorativa. Só quando a voz de André Henriques surgiu é que o tema ganhou novamente equilíbrio. Mas foi o único passo em falso. “As Putas Dançam Slows” e “A Corda do Elefante Sem Corda”, resgatados do menos conhecido EP Marsupial, foram interpretados com a intensidade devida e nem se estranhou ver uma fadista a cantar coisas rock. Contudo, o ponto alto da parceria (e também o momento mais ousado) foi a transfiguração de “Adeus que Me Vou Embora”, de António Variações. Com um arranjo à Linda Martini, o que se ouviu foi um tema completamente diferente, mas mantendo a alma do original e terminando com Gisela João a cantar a capella, num momento que só não foi mais bonito porque faltou alguma limpidez técnica à voz.

Pelo meio, entre alguns piropos de gosto duvidoso e uma comparação a Lady Gaga feita por um espectador (comentário mais ridículo do dia, da semana, do mês ou do ano?), Gisela fez uma incursão pela plateia. Como referiu Hélio Morais, “foi preciso vir um cisne para o primeiro crowd surfing da noite”. E já íamos em quase uma hora de concerto…

É certo que a música dos Linda Martini tem tanto de energia como de emoção mais introspectiva, mas a reacção foi das menos entusiastas que vimos em concertos da banda portuguesa, mesmo incluindo festivais, onde o público é necessariamente mais híbrido. Parece que no concerto de 5ª foram os fãs e na 6ª apenas os curiosos (salvo o devido exagero, claro). Ou então que o público estava simplesmente constrangido pelo espaço, mesmo apesar dos avisos de Hélio que, logo nas palavras de boas-vindas, referiu que este é um concerto rock e que, como tal, faria sentido as pessoas mexerem-se. E a parte inicial do alinhamento bem se adequava a uma coisa mais física, com temas como “Juventude Sónica”, “Ratos” ou “Sapatos Bravos”.

Contudo, longe vão os tempos em que temíamos que “Turbo Lento” fosse demasiado cru, próximo das raízes hardcore, e que se perdesse alguma da complexidade que os Linda Martini sempre tiveram. Isso é desmentido ao vivo até em temas mais bruscos como “Juarez”, verdadeira viagem com vários andamentos e que nos eleva aos píncaros de emoção na vocalização mais sentida. Ou em “Febril (Tanto Mar)”, que não conta com o sample de Chico Buarque, mas tem uma aceleração instrumental avassaladora. E depois há duas canções lindíssimas, como são “Panteão e “Volta”, a última das quais a transitar directamente de “Partir Para Ficar”, com as palavras imensas de José Mário Branco (“lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição…”). Mesmo com a harmónica a não ouvir-se devidamente, foi um dos grandes momentos da noite.

Já após a vénia ao grande Tó Trips (Dead Combo), os Linda Martini deveriam ter saído de palco antes de um suposto encore. Mas decidiram não fazê-lo, “para não enganar o público”. Altura para os grandes hits do passado, com o eterno “Amor Combate” a abrir. É impressionante como, depois de tantos anos, continuam a tocar um tema tão óbvio como se fosse a primeira e a última vez que o fazem, com uma urgência e um sentimento imbatíveis e uma cumplicidade enquanto banda que se sente em todos os momentos do concerto. Depois, não poderia faltar “100 Metros Sereia”, em que a versão relativamente curta (o loop “foder é perto de te amar se eu não ficar perto” foi pouco prolongado) mostrou que este público esteve aquém da força dos Linda Martini em palco.

“100 Metros Sereia” seria o fim óbvio (tantas vezes repetido), mas os Linda Martini decidiram “enganar o público”, o que no caso significa voltar para um encore. Tocaram outro dos clássicos deOlhos de Mongol, “Dá-me a tua Melhor Faca”, um tema totalmente desajustado ao cliché do dia dos namorados, mas que fechou o concerto nos píncaros, com a baixista Cláudia Guerreiro num stage diving. O entusiasmo do público pode ter estado aquém do esperado e o ambiente morninho, mas os Linda Martini foram mais uma vez grandes ao vivo, numa performance ampliada pela arrojada parceria com Gisela João.