“O que fizémos de nós?”, pergunta André Henriques em Nós, Os Outros. Eu respondo com “uma grande evolução e maturação por parte dos Linda Martini”. Desde 2003 que o quarteto (antigo quinteto) de Queluz dá cartas no rock português, de forma meritória. É que, verdade seja dita, até ao seu aparecimento havia um vazio, uma lacuna na música portuguesa e o seu caso de sucesso – aliado à forma como esse mesmo sucesso surgiu (o empurrãozinho chamado Myspace) – veio abrir portas a toda uma nova geração de rock livre, despreocupado e sem pudores – cantado ou não na nossa língua mãe -, surgisse. Não é que os Linda Martini sejam os pais do nosso rock, mas são, definitivamente, os grandes padrinhos dele.

Assim, depois do EP promo de 2005; de se tornarem mentores geracionais com o tema Amor Combate; de um assombroso e rico LP, Olhos de Mongol, e de outros dois EP’s editados (Marsupial Intervalo, este último lançado pela iniciativa Optimus Discos, no ano passado), eis que 2010 vê nascer uma Casa Ocupada. Vamos, então, entrar nela.

Mulher-A-Dias, tema que dá início ao álbum e o segundo single dele extraído, é uma ode aos reverbs, à distorção, à criação de ambientes sensoriais – que, de resto, pautam todo o disco -, às guitarras frenéticas de Pedro Geraldes e de Henriques, bem como à mais do que eficiente bateria de Hélio Morais. Podemos – em tom elogioso – fazer uma analepse com o tema, recuando ao início dos 90 e ao fantásticoGoo dos Sonic Youth. Porém, que não se pense que os Linda Martini são uma banda de colagens. Pelo contrário, são uma banda rica, com todas as influências dentro do expectro do rock: as guitarras de Nós Os Outros, Elevador ou da negra-negra Queluz Menos Luz, com um toque de pós-rock e com malhas à la Old Man Gloom, quase que nos coercem a colocar os temas em repeat e repeat no player. No entanto, este cariz mais pós-rock/melódico-ambiental não é, necessariamente, novo na banda: temas como A Severa ou Dá-me A Tua Melhor Faca (em Olhos de Mongol) já o antecipavam. A diferença maior é que, neste disco, a tal maturação que comecei por referir nota-se mais nestes pormenores evolutivos.

Casa Ocupada aposta também no sobressair do baixo de Cláudia Guerreiro, comoAmigos Mortais nos mostra, e num cariz mais sexual que Cem Metros Sereia nos obriga a repetir “foder é perto de te amar, se eu não chegar perto”.

Mas, este é, também, um disco repleto de momentos e de detalhes: a instrumental S de Jéssica (à boa moda das “virgens” Efémera ou Este Mar, do promo) dá-nos um banho de post-rock, de delays e de nostalgia, em jeito de dedicatória a Sérgio Lemos, ex-membro dos Linda Martini.

Belarmino Vs, o primeiro avanço do álbum, é um tema forte, mas é a Juventude Sónica que cabe o papel de desnudar Casa Ocupada. Lembrem-se de que os Linda Martini nasceram da escola punk e do harcore e que, ao seu segundo disco, regressam, já “crescidos” a esses tempos, com uma inefável melancolia. Juventude Sónica é, por isso, o tema que nos mostra as influências destes quatro meninos – “quando a nossa cara se gastar e tivermos medo de a riscar, parecemos putos, não temos aulas amanhã” conta-nos a canção -, a rebeldia que os marcou desde o início da sua carreira.

Há alguns anos, era fixe dizer “eu curto Linda Martini”; se calhar, hoje em dia, já não é fixe, porque, para muitos, o quarteto de Queluz se tornou mainstream, “até estão em queimas e latadas”, ouço dizer. Eu continuo a gostar e a achá-los uma grande banda portuguesa, porque, com mais esta etapa, mostram que continuam capazes de se reinventar, de ganhar novos públicos de borbulhas na cara ou de barba branca e, acima de tudo, de, na espiral da reinvenção, se manterem fiéis a si próprios.