Lisboa – estação final da mini-tour que levou os Lifedeceiver e os Don’t Disturb My Circles também a Pombal e ao Porto. Tal como nas datas antecedentes, na capital as duas bandas não estiveram sozinhas. Três nomes portugueses somaram-se ao cartaz do Ginásio do Alto do Pina, para uma matiné que revelou que o hardcore português prima não só pela qualidade, mas pela versatilidade.

Na pitoresca sala lisboeta do Alto do Pina, mais habituada aos ensaios para as marchas populares do que a uma descarga hardcore, os Pussy Hole Treatment deram início ao evento, depois de passado um atraso considerável. Colocados ao mesmo nível do público, a banda lisboeta mostrou uma evolução no som que pratica, som esse que coloca na mesma esfera o hardcore e o thrash, criando um crossover interessante e que não se limita a carregar no acelerador. Quem os viu com D.R.I no início do ano e os vê agora, nota um aperfeiçoamento no capítulo instrumental e a cover de Lionheart dos Have Heart mostra que a banda não é só riffaria caótica.

A expressão de espanto estampada na cara de quem viu os Don’t Disturb My Circles no palco do Santiago Alquimista, a abrir para Parkway Drive, deixa bem claro que o público nacional não está habituado a que uma banda ‘da casa’ pratique um som à primeira vista tão desconexo. Pois bem, os DDMC, um ano depois dessa actuação, não mudaram o seu norte e continuam a desferir uma incerteza rítmica, que deixa em sobressalto aqueles que se lhe deparam. Um mathcore que, dados os seus súbitos arranques e travagens, acabou por sair um pouco prejudicado pelo som da sala, mas que revela que em Portugal também há quem ouça Botch ou Coalesce e os tenha como referência.

Do Algarve, vieram os A Thousand Words, outra banda que começa a despontar no espectro do hardcore nacional. Com toda a justiça, diga-se. De inspiração no legado que belgas Rise and Falltêm construído desde 2002, os A Thousand Words são uma lufada de ar fresco naquilo que por cá se faz: riffs sujos, grooves e breakdowns acutilantes e uma presença aguerrida fazem do grupo algarvio um nome a ter claramente em conta para os anos que se avizinham. Mesmo não contando com o seu baixista, pontualmente substituído para esta data, os A Thousand Words voltaram a deixar as suas marcas em Lisboa, despedindo-se com Bottom Feeder dos, lá está, Rise and Fall. Será curioso vê-los a abrir para a banda da Bélgica, no próximo mês de Abril.

Chegava, então, a vez dos Lifedeceiver. Se os Don’t Disturb My Circles ou os A Thousand Words representam as diversas ramificações que estão a irromper no solo do hardcore nacional, osLifedeceiver não ficam atrás. O seu produto musical é distinto dos demais e, por estes dias, está cada vez mais soturno e virulento. A reacção de quem os vê divide-se pelo acenar de cabeça e pelo olhar incrédulo, de quem fica admirado por haver uma banda portuguesa inspirada no venenoso sangue dos Integrity e no submundo das afinações low tuned que patenteiam o sludge e o doom. Apresentando faixas dos splits com Utopium e com DDMC(grande Torch Forged In Mist), e levantando também um pouco o pano sobre o que será o futuro do grupo, os Lifedeceiverdistribuíram uma crispada meia-hora de actuação, que mais abrasiva teria sido não fosse o cansaço acumulado por três dias consecutivos de tour.

* Setlist de Lifedeceiver *
Doubting The Trustworthy
Guidance Delivered
The Needless
The Darkness
My Hands Aren’t Tied
As The Trail Deepens
Torch Forged In Mist
Venom Effect
The Massive
Avis, The Greeter
Our Lonesome End
Heathen Of Truth

A fechar uma tarde já transformada em início de noite, estiveram os Step Back!, vindos de Penafiel e prontos a esbater o interregno temporal que marcou a sua última passagem pela capital. De imediato se ergueu um tumulto, provocado pelo estilo bem old school e NYHC que a banda nortenha patenteia, onde o groove é palavra-chave. Sala cheia, a provar que a maioria queria ver o regresso dos Step Back! (mesmo com um Académica – Sporting a ser transmitido em simultâneo), onde o two step, o sing along, os side to sides e toda a parafernália de movimentos acirrados marcaram presença; que mais violentos se tornaram quando a banda recuperou World Peace dos icónicos Cro-Mags. Concerto de grande nível, a encerrar um evento que apontou holofotes ao futuro do hardcore nacional.