Temos, porém, de restringir-nos a Voronoff, que contribui mais para a castidade dos macacos do que para a imortalidade dos homens. Todas as jactâncias sobre o progresso científico são charlatanismos deslavados: enquanto a Ciência não suprimir a morte, nada terá feito.

Giovanni Papini, satírico incurável, escrevinhou algumas das mais mordazes passagens sobre o fim. Sobre a depressão maior do Homem (a única?): a consciência do seu próprio término. E, quando ouvimos Leonard Cohen a vociferar-nos ao ouvido ‘show me the place where you want your slave to go’, sentimos que o tempo, ele, é o único e verdadeiro juiz cego. Tirano, que nos escraviza desde o primeiro dia.

Cohen, aos 77 anos, poderá ter feito aqui a sua despedida no que aos longa-duração diz respeito. Old Ideas, por conseguinte, não é, de todo, um título escolhido ao acaso. É que, neste álbum, encontramos o canadiano no registo que o tornou um dos mais singulares vultos do séc. XX: graciosamente cáustico, passeando a sua soturna voz por entre os mordentes sorrisos da ironia, a irremediável ingenuidade do amor e a melancolia de uma memória que se conta a si mesma há sete décadas. Memórias que rebuscam velhas ideias de um velho que sabe que o é: “mirrors don’t lie”, confessa Leonard em Crazy To Love You.

Palavras sussurradas num disco que se desdobra em múltiplas melopeias. Ora feitas de uma taciturnidade que arrepia (tão bem ilustrada na bela Going Home), ora erguidas sobre um folk rendilhado a gospel, onde as vozes femininas são uma constante, sendo Darkness disto melhor exemplo. Poucos serão aqueles que irão considerar Old Ideas o melhor álbum de Cohen. Mas também poucos negarão que este é um incontornável testemunho de um poeta que receia ser Sísifo.

I used to love the rainbow
And I used to love the view
Another early morning
I pretend that it was new
But I caught the darkness, baby
And I got it worse than you.