Laurel Halo apresentou-se com data única em Portugal. Um feito meritório, sobretudo quando uns dias antes em Barcelona, o festival Mutek exibia a eletrónica de ponta – de Andy StottDeadbeat, da misteriosa Laurel Halo a Kode9. Para o nosso terraço à beira mar plantado, tivemos o equivalente à cereja no topo do bolo (Laurel Halo). Bolo que serviu para comemorar a longevidade da Rádio Universidade de Coimbra e os seus maravilhosos 28 anos.

A planificação deste concerto fez-se por uma entrada lateral do TAGV (Teatro Académico de Gil Vicente), onde o palco se transformou numa caixa forte, tipo club underground, aproximando o público do “laboratório” rítmico de Laurel. Garantiu-se também que cada batida techno não tivesse outra alternativa senão repercutir-se nos corpos de todos aqueles que se foram movimentando em danças variadas.

A música techno minimal serviu de esqueleto da performance de Laurel, sob a qual foram-se colando outros sons, alguns mais uniformes, outros mais ruidosos, jogando entre o linear e a desconstrução. Para além de uma formação com componente clássica, Laurel ganhou calos a tocar com grupos de música improvisada e isso é percetível quando a vemos deambular pela mesa mexendo em todos os botões, teclas e fusíveis. A eletrónica e inventividade de Laurel Halo mostra-se uma perfeita sequela da música electro dos anos 80, dos ritmos de Mantronix ao início dos anos 90 e nomes como Orbital ou AFX. Se recuarmos mais um pouco ainda chegamos ao minimalismo de Steve Reich.

No tempo que durou a atuação – praticamente com apenas uma paragem em que foi possível sentir o silêncio – Laurel Halodançou, vibrou e encarou o público poucas vezes. A complexidade da sua música requeria também alguma introspeção. Por ser um evento organizado pela RUC, foi possível acompanhar a atuação via transmissão rádio. Quem ouviu pode ter imaginado a intensidade física dos decibéis que ocuparam o espaço do TAGV. Sempre que o público se entusiasmava com o groove das batidas e tons graves, eis que estas eram cortadas por instantâneos de música industrial e corrosiva. A atuação teve sobretudo techno, noise, IDM e glitch. Os ritmos esticaram-se até à alienação do nosso imaginário.

Mesmo que em disco seja possível estabelecer paralelismos com nomes como o de Oneohtrix Point Never, Flying Lotus, ou o cardápio de editoras como a Basic Channel ou raster-noton, é interessante ver artistas como Laurel romperem os convencionalismos da música de dança.

Atuações como esta funcionam como terapia que devia ser comparticipada pelo nosso sistema nacional de saúde. O corpo é obrigado a mexer-se e a mente a manter-se aberta ao improviso. Sempre que ouço os discos de Laurel Halo procuro refugiar-me nuns bons auscultadores de forma a poder incorporar os baixos e outros subterfúgios sonoros. Por isso, é quase uma bênção poder libertar os sentidos numa rave desta qualidade e intensidade. Obrigado RUC e venham muitos mais anos.