Assistir à segunda encarnação dos Kyuss, sob o desígnio Kyuss Lives!, assemelha-se a uma ressurreição, que consigo traz quase tudo aquilo que os tornou ímpares há vinte anos atrás. Portugal nunca teve a chance de os ver quando o apóstolo Josh Homme pelo deserto pregava, mas, ontem, chegou a hora de todos os stoners praticantes poderem inspirar e expirar as inolvidáveis escrituras de uma banda que se ergueu sob o áspero sol do sul da Califórnia.

Abrir com a Gardenia é, por si só, uma afirmação categórica daquilo que os Kyuss (ainda) representam. Bruno Fevery assumiu a pesadíssima responsabilidade de substituir Homme e fê-lo de forma irrepreensível. Poder-se-á sempre dizer que “não é a mesma coisa”, mas isso não passa da constatação do óbvio – o que se torna verosímil, assim que o concerto vai ganhando envergadura, é que Fevery chega e sobra para as encomendas. Os solos em Freedom Run, Fatso Forgotso ou Spaceship Landingprovam que o guitarrista se sente confortável até nos momentos mais árduos.

Os restantes membros, GarciaOliveriBjork, todos integrantes da formação original, mantêm o ADN intacto. Se Brant Bjork, poliglota quando o assunto é stoner, sofreu um pouco com a acústica da Incrível, que lhe retirou potência à bateria (algo que se notou no clímax de Asteroid), Nick Oliveri foi mestre no groove, parte essencial na estrutura de qualquer música de Kyuss. O baixista, que gerou uma certa animosidade em alguns fãs da banda, que questionaram o motivo de Scott Reeder não fazer parte da reunião, conseguiu com toda a fluidez expressar fielmente a serpente low tune de uma One Inch Man ou da monumental Whitewater, mesmo usando palheta, algo que Reeder sempre preteriu. John Garcia, que está para Palm Desert como Sinatra está para Nova Iorque, raramente teve um som à altura, sendo por demasiadas vezes ofuscado pelos restantes instrumentos. Ainda assim, ouvi-lo a vociferar o magnífico combo criado com El Rodeo 100º ou o início incontornável de Supa Scoopa and Mighty Scoop, acompanhado a todo o volume por uma Incrível Almadense a abarrotar e a suar em bica, faz com que a nossa memória registe de imediato esses momentos.

Mesmo com uma acústica limitada, os Kyuss conseguiram durante quase noventa minutos transfigurar Almada, confirmando o epíteto desértico que Mário Lino concedeu à Margem Sul. O calor abafado, o fumo – proveniente ora dos joints que se abriam de par em par, ora das fog machines – e o desfilar de clássicos de Welcome to Sky Valley…And The Circus Leaves The TownBlues For The Red Sun, colocaram a Incrível Almadense no ponto, fazendo relembrar as históricas generator parties, o habitat natural onde os Kyuss floresceram.

Para além das condições de som medíocres, a outra nota negativa vai para o setlist, que, ao que parece, terá sido cortado em duas músicas – provavelmente Allen’s Wrench50 Million Year Trip (Downside Up), duas bestas de Blues For The Red Sun. O encore ficou assim somente a cargo de Green Machine, o supra-clássico que tratou de virar a sala almadense do avesso. O público queria ainda mais e foi com apupos que recebeu a música de fundo que colocou fim à noite. Jonh Garcia prometeu um regresso a Portugal para 2012, quiçá com novo álbum.

Os Miss Lava encarregaram-se da primeira parte. A banda continua a apresentar o seu álbum de estreia, Blues for the Dangerous Miles, lançado há dois anos, mas já com um piscar de olhos ao futuro registo de originais do grupo. Durante 45 minutos, os portugueses foram fazendo o possível com as débeis condições acústicas e com uma plateia ainda meio gás, mas que, no entanto, já responde vivazmente a Black Rainbow ou Don’t Tell a Soul.