O cardápio começou com os Lazer/Wulf (L/W), trio de calibre olímpico na modalidade de misturar estilos em versão extrema. Podemos chamar-lhe metal progressivo, math rock, ou uma epopeia com cavalgadas que vão do sludge ao funk num abrir e piscar de olhos. Ao nível de referências, os L/W fazem lembrar grupos como Behold… The Arctopus, Dysrhythmia ou Hella. Uma atuação que teve uma dose considerável de suor, onde se tocaram temas dos discos “The Void That Isn’t” (2009) e “There Was a Hole Here…” (2012), e que serviu de festim para quem gosta de metal progressivo para não cardíacos. Se esquecermos o uso desnecessário de expressões vocais como “ah ah”, as poucas vezes em que se cantou deram mais espaço e amplitude às composições do grupo e isso fez com que ficasse tudo mais interessantes.

Quem gosta de música mais técnica e instrumental com certeza que deverá ter gostado deste concerto, apenas restou a sensação que com um pouco mais de maturidade criativa será possível que o grupo venha a perceber que não têm de encher cada espaço com novos riffs (o guitarrista Bryan Aiken mexeu tanto os dedos que até durante o concerto de Kylesa esteve atrás dos amplificadores a fazer air guitar em alguns temas). Um concerto que teve peças interessantes, mas que infelizmente foram arrumadas num puzzle demasiado confuso.

Praticamente a meio da tour europeia que leva os Kylesa a tocarem diariamente durante dois meses, o arranque do concerto iniciou-se morno, mas rapidamente o som foi ajustado e a banda soltou-se para em crescendo ter deixado o público completamente rendido (vistas as reações). Ao longo de praticamente uma década de edições discográficas, os Kylesa conseguiram aprimorar uma sonoridade que tem tanto de genuína como de elogio a várias referências que se podem imaginar ao ouvir cada tema – das harmonias à Cathedral, passando pelo stoner duns Spiritual Beggars, às quais se junta uma capacidade para comporem canções dignas de bandas como Monster Magnet ou Kyuss.

Em disco, e sobretudo ao vivo, é percetível a experiência e inteligência de uma banda que sabe exatamente o que tem de fazer para criar uma densidade instrumental exemplar ao juntar o peso do metal e o groove do rock. A secção rítmica (dois bateristas e um baixista) afirmou-se como o esqueleto deste mastodonte que inspira o manual de boas práticas de headbanging. Nos flancos dois excelentes guitarristas, uma voz masculina e outra feminina, que recuperam vários registos melódicos. Certas partes vocais lembram alguns clássicos do metal industrial, como Ministry ouGodflesh.

O concerto centrou-se praticamente nos últimos três discos de originais, com uma passagem pelo disco “Time Will Fuse Its Worth” (2006), através do tema “Hollow Severer”. De resto ouviram-se músicas de “Spiral Shadow” (2010) – como “Tired Climb”, “Forsaken” e “To Forget”; passando pelo disco mais recente “Ultraviolet” (2013) – temas como “Quicksand”, “Unspoken”, “Long Gone” e “We’re Taking This”; tendo ainda sido recuperados vários temas de “Static Tensions” (2009) – nomeadamente “Unknown Awareness”, “Scapegoat”, “Running Red” ou “Nature’s Predators”.

Os Kylesa aprenderam com os melhores e emergiram na onda do pós-metal para se tornarem num dos projetos mais interessantes e coesos do metal atual. Ter a oportunidade de os ver ao vivo resulta num sorriso nos lábios, num acréscimo na fatura do massagista e a recordação de um ambiente que merecia perfeitamente casa cheia.

No final dos concertos foi possível assistir ao jogo de futebol Portugal x EUA – projetado após o palco ter sido despido de todo o material. Uma iniciativa incomum, mas que dá algum espaço ao convívio e celebração numa noite a relembrar durante os próximos tempos.