Em estilhaços, os ouvidos daqueles que se distribuíram pelos dois pisos do Santiago Alquimista testemunharam um ataque que fez recordar a ofensiva dos Keelhaul na Incrível Almadense. Lá, em 2009, os norte-americanos amassaram os que se quiseram afundar num mathcore com fundições a lama; agora, foi a vez dos KEN mode se assomarem de suor em bica, veias salientes e olhar fulminante de um guitarrista/vocalista que parecia capaz de degolar quem o afrontasse – ficou-se pelo gesto, somente.
Feroz desde o primeiro instante, quando Obeying The Iron Will…foi trazida a palco para inaugurar a noite, o concerto dos KEN Mode provou que os Today Is The Day já deixaram rebentos a quem poderão entregar a tocha do noise e da alienação rítmica.Never Was, a encerrar, evaporou qualquer dúvida. Excelência.

Discorrer sobre os Circle Takes The Square não é uma missão que se aparenta fácil. E fáceis eles também não são. Fazendo a quadratura do círculo, o trio norte-americano trouxe a palco um animal musical que faz do descompasso acerto e que delineia o hardcore com as aventuras da experimentação e do screamo entoado a três bramantes vozes. O que, a princípio, parecia árduo de digerir tornou-se a cada minuto mais fácil, com os Circle Takes The Square a açambarcarem os presentes, colocando-os numa carruagem que percorreu os cumes onde o assertivo riff é soberano e os vales contemplativos onde a melodia se faz rainha. Num paradoxo desafiante, os também nativos de Savannah foram aplaudidos pela ousadia de um concerto que, a ter melhor em campo, seria o baterista. Talento.

O Santiago Alquimista contorceu-se e fez-se forte para aguentar três amplificadores-bicho, que, dilatando à máxima potência a torrente de riffs e linhas de baixo, fustigaram os recantos da sala lisboeta. De tal forma que Said And Done, música que estreou os Kylesa na capital, se escutou turva e diluiu as vozes de Phillip Cope e Laura Pleasants na amálgama sonora. O berbicacho acústico haveria de melhorar, principalmente para os lados do guitarrista, já que a voz de Laura raramente se ouviu.

Não que tal tenha afectado em demasiada a prestação do quinteto da Georgia. Se as cordas vocais da senhora Pleasants em plano obscuro estiveram, os seus solos e precisões rítmicas teceram a indumentária com que os Kylesa sempre desfilam, permitindo arremessar o trunfo Only One na mesa de jogo e manter a parada com uma Tired Climb que já é um Ás de espadas bem conhecido daqueles que seguem o grupo. Tired Climb, essa, que faz parte de um Spiral Shadow que em 2010 despertou alguns mixed feelings, naturalmente reflectidos em Don’t Look Back e To Forget, faixas que parecem não ter arcaboiço para manter a pedalada da antiga e punk Bottom Line.

De teremim e feedbacks se erguem os interlúdios dos Kylesa, eles que nunca deixam cair a banda em zona cinzenta. Atrás, uma acicatada dupla rítmica que serve de alicerce para aquilo em que os sulistas são melhores: a investida no seu material cuja qualidade é indiscutível. Que é como quem diz, uma psico-fulminante Hollow Severer e uma Scapegoat (em versão extensa) capaz de despertar um furibundo moshpit e um repetido pedido para os norte-americanos regressarem ao palco. E eles voltam, agradecendo a recepção e elogiando a beleza da cidade. Eles voltam porque há uma Running Red para ser festejada na sua efervescência tribal, com direito àqueles segundos que nos recordam a razão de o Tony Iommi ser o pai disto tudo; e voltam porque há uma Where The Horizon Unfolds pronta a dar-nos um corrosivo lampejo daquilo que polvilha os ares do sul dos Estados Unidos: riffs, riffs e mais riffs, de tonelagem alimentada a Jack Daniels ou a Jim Beam e uma atmosfera que recupera esse horizonte onde fumega o southern steel.

Brindemos, então, aos Kylesa, que continuam a esculpir em palco aquilo que os torna uma identidade singular no mundo a que se chama sludge. Testemunhámo-lo.