Os distintos jogadores antecipam a excepção na regra e não há ponta de ingenuidade na táctica dos Kvelertak. Oriundos da Noruega, berço maior do black metal, os fiordes do tremolo picking e do blast beat são-lhes por demasia familiares e só com dificuldade poderíamos encontrar gente mais capaz de alterar as doutrinas de um género que, até há uns anos, se julgava rei da ortodoxia. Os Kvelertak estão-se borrifando para aquilo que nós temos dentro da nossa caixinha de ideias sobre o black metal: o corpse paint que fique na mala de viagem dos Immortal e venha daí a boina e o kilt do Angus Young.

O som dos Kvelertak nasce de uma premissa sem premissas, que de peito aberto ao mundo se anunciou com um excelente álbum homónimo de estreia, em 2010. Três anos foram arrancados do calendário e Meir, que em norueguês significa “mais”, não nos tenta fintar: há mais. Não que agora tenham extremado posições e se tenham tornado um bicho progressivo de sete cabeças, entretido a encher de especiarias um prato já de si variado – não, o que este registo nos traz é um reforço das principais qualidades de uma banda que rasga a fatiota do típico metaleiro de Bergen e lhe enche o espírito com a despreocupação do hard rock e lhe passa uma caneca de cerveja para a mão.

Contando três guitarristas nas suas trincheiras, as impressões digitais dos Kvelertak não se aventuram pelo shredding masturbatório, mas sim pela criação de simples e orelhudas melodias, tão no espírito do stadium rock e suficientemente capazes de nos obrigar com elas a cantarolar. À socapa, os blast beats surgem; à descarada, a voz rasgada, tipicamente black metal de Erlend Hjelvik, berra-nos ditongos noruegueses. E aquela que à partida seria uma desconexa combinação, põe-nos a cabeça a balançar ao sabor de Undertro (que riff!) e quase nos incute um devaneio hardcore – obrigado Kurt Ballou por saberes tão bem como meter um baixo a soar de forma impecável.

A simbiose triunfante dos Kvelertak assume os seus maiores contornos na segunda metade disco. Além da já mencionadaUndetro, os nórdicos despejam uma Tordebrank de nove minutos – de longe a maior faixa da sua discografia – onde se deixam levar pelas suas epopeias odinistas e partem para um desenfreado ulular de guitarras, que só termina num clímax proto-psicadélico – ordeiro q.b. para nos meter em sentido para a derradeira Kvelertak, na qual encontramos a conclusiva prova de que estes tipos não poderiam estar mais rock n’ roll. Se no final dos cinquenta minutos deste disco, em perspectiva o ladearmos com o álbum de estreia, então definitivamente sim, os noruegueses deixaram que a balança pendesse para o lado das festividades ao sabor da cerveja fermentada.

Em 2013, os Kvelertak percorrem com toda a segurança uma estrada que os conduzirá ao inferno, Brian Johnson dixit. Meir é o seu veículo de seis lugares.