Estas coisas dos regressos, reuniões e coisas que tais são temas para causar um friozinho na barriga. E às vezes depois de ouvido o resultado final, passa de frio na barriga para vomitório compulsivo. Mas o que é que acontece se o resultado final se apresentar orgástico? Bom, aí o júbilo é total.

Felizmente é este o caso de Absolute Dissent, o enésimo disco dos Killing Joke e um regresso à boa forma. Primeiro, e antes de tudo o resto, pela morte de Paul Raven; depois, porque tal como a muitas bandas dos anos 80, os anos 00 fê-los perder a cabeça com experimentações e devaneios que acabariam por ser inconsequentes. Mas quando quatro marmanjos se juntam em estúdio com vontade de fazer coisas novas, o resultado pode ser bom.

Tão bom que Absolute Dissent é dos registos mais completos que os Killing Joke já gravaram. Até podemos começar pelas letras: uma mistura de alerta social (é só de mim ou às vezes o Jaz Coleman soa um bocadinho paranóico?) com temas apocalípticos. O que é bem engraçado, atenção. As extremamente dançáveis linhas de baixo e bateria de Absolute Dissent juntas a linhas como «Brainwashed masses fit for fodder / Useless eaters – condemn / Eradicate the worthless breederds /I oppose, resist, foment» resultam, porque não?, num hit de pista de dança com um apelo gigante.

Mas bom, nesta altura já pensam: “hey, mas o Jaz Coleman pirou completamente e agora faz techno?». Quase, quase. Olhe-se para European Super State: ele até parece industrial, com riffs básicos e assertivos. Mas está lá, bem presente, uma batida techno que predomina e, de certa forma, colore aqui e ali o álbum. Reconhecemos: a capacidade de criar faixas dançáveis (ou pelo menos autênticos otovermermes) chega a espantar.

E por esta altura quem quer ainda ouvir Absolute Dissent? Que seja ponto assente que a grande ideia foi mesmo mostrar a diversidade neste disco. Que é um grande disco, muito graças à produção. A parede de som é uma constante. As mudanças nos modos de gravação só elevam a qualidade do que se ouve, como por exemplo em The Great Cull, onde a banda gravou como se estivesse em palco. O resultado? Bom, é como se estivessemos à frente do palco: colunas bem altas, volume lá no alto e ninguém nos pára.

Mas mais variedade, dizeis vós? Em European Super State. Um tema de cariz industrial, com riffs básicos e assertivos e com batida techno que predomina e, de certa forma, colore aqui e ali o álbum. A capacidade de criar faixas dançáveis chega a espantar, mas o incrível é o poder musical de todas as faixas de uma banda que anda nestas lides há 30 anos. E também há teclados – em In Excelsis, cantada quase em mantra – e uma aproximação à hipnótica sublevação do shoegaze.

Jaz Coleman já disse que não sente necessidade de nada, nem de manter os Killing Joke, por isso este Absolute Dissent acaba por ser para nós uma espécie de dádiva. Apocalíptica, mas totalmente despretensiosa, por sinal. Bom, afinal isto é pós-punk em pleno século XXI, que provavelmente não tem definição, mas já tem som. O som dos retornados Killing Joke.