Os escandinavos Katatonia trouxeram à margem sul um pedaço da sua carreira – dezassete músicas, no total – e trouxeram também o frio sueco consigo. Com a temperatura abaixo dos dez graus em Almada, as centenas de pessoas recolheram-se dentro da Incrível, prontas a testar (a maioria, novamente) aquilo que realmente vale a banda de Jonas Renkse, depois de nas outras passagens por Portugal (a última foi no Vagos Open Air Fest 2009) os Katatonia terem ficado, segundo a opinião de muitos, abaixo das expectativas.

Ainda antes disso, os setubalenses Before the Rain foram os escolhidos para abrir a noite. Já sem o vocalista Carlos D’Água, substituído pelo americano Gary Griffith(que pertenceu aos já extintos Morgion), a banda portuguesa recolheu algum calor do público presente. Com um doom bem trabalhado, os Before the Rain foram alternando entre as típicas paisagens melancólicas e as pesadas descargas death, uma fórmula bem reconhecida no género, mas nem por isso original. O som ainda estava em período de testes, algo que foi principalmente notório na voz de Griffith, o que não permitiu que o concerto atingisse um patamar superior. Deslindados os temas de…One Day Less (2007) – o único álbum da banda formada em 1997 – fica a vontade de ouvir o que Gary Griffith poderá trazer num novo registo dos portugueses.

Depois de quarenta e cinco minutos de Before the Rain e de mais uns trinta para o soundcheck e troca de material, estava na hora de Katatonia entrar em palco. Desde 2009 com Per “Sodomizer” Eriksson (que também faz parte dos Bloodbath) numa das guitarras e Nille Sandin no baixo, os suecos parecem ter entrado numa nova fase no que às live performances diz respeito. O início, contudo, não foi dos mais efusivas, ou não estivéssemos nós a falar de duas faixas de Night is the New Day (2010) (Day and Then the Shade Liberation), as quais foram escolhidas para abrir o concerto de Katatonia, um disco ainda pouco entranhado e devidamente saboreado pela massa adepta da banda.

O resto da actuação não seria, também, concentrado no passado distante da discografia. Pelo contrário. Além do último álbum, o concerto centrou-se essencialmente nos Katatonia pós-2000. Os primeiros grandes momentos surgiram com My Twin e Soil’s Song, músicas de The Great Cold Distance (2006), tendo a última ficado embrulhada entre três faixas de Night is the New Day. O público queria mais um pouco daquele travo confortável do “esta conheço” e Katatoniaproporcionou isso. Com um Renske mais falador do que o habitual, agradecendo frequentemente aos fãs e a um país que, segundo as suas palavras, lhe costuma dar bons momentos, os suecos partiram para Saw You Drown, faixa lançada em 1998, integrada em Discouraged Ones. Foi a viagem mais longa ao passado, já que nemDance of December Souls (1993) e Brave Murder Day (1995) foram revisitados em Almada. Foi também o ponto de partida para a melhor fase de todo o concerto (brevemente quebrada por Idle Blood), na qual o público se pôde deliciar com três faixas consecutivas de Viva Emptiness (2003), um dos álbuns mais aclamados pelos fãs de Katatonia, com destaque para Ghost of the Sun, cantada num ressonante uníssono pela multidão que enchia tanto a plateia, quanto um dos balcões da Incrível Almadense.

Antes do encore, regressou-se a The Great Cold Distance, do qual se retirou July para fechar o setlist base. A banda despediu-se, as luzes baixaram e os pedidos de regresso aumentaram, de imediato correspondidos com o regresso do quinteto. Já sem camisola, “Sodomizer” começou a tocar For My Demons, de Tonight’s Decision(1999), sonoramente saudada pelo público. Forsaker, mais uma do último registo, foi também escolhida para o encore, que fechou com Leaders, a faixa emblemática deThe Great Cold Distance.

Feita a vénia, trocados os aplausos, distribuídos os “recuerdos” (setlist, baquetas e palhetas), os Katatonia saem de Almada com um saldo extremamente positivo, num concerto que conseguiu ter mais impacto do que aquilo que inicialmente se previa. Com um som excepcional e sem flutuações ao longo de toda a actuação, os suecos conseguiram distribuir uma prestação sólida e, mais importante do que isso, intenso.