A noite estava agradável e aqueles que preferiram o recôndito teatro de bolso do TEUC ao frenesim que ia no Salão Brasil,  no âmbito do Jazz ao Centro,  certamente não se arrependeram. A noite pode não ter aquecido tanto,  pode não ter sido tão vertiginosa, mas lá que fomos transportados para o post-rock em duas viagens separadas, disso não haja dúvidas.

Começando com a tradicional pontualidade coimbrã, os Asneira tocaram com as bancadas praticamente cheias. Um set curto, de banda que se estreia, mas com músicos que dispensam apresentações. E verdade seja dita, quem foi ver esta banda por causa dos seus membros não saiu triste. Os Asneira têm na bateria o poder e cadência inconfundíveis de Ricardo Martins, nas melodias etéreas e sónicas – como se tornou hábito chamá-las – o toque de Cláudia Guerreiro (ou da facção bonita dos Linda Martini, que rapidamente ligamos à sua figura) e os riffs guinchados de Rui Carvalho. Mas, cômputo geral, esta banda vale por aquilo que nos consegue entregar quando todas estas particularidades se juntam – e resultam. A falta de um baixo é ocasionalmente notada, mas quer a bateria furiosa, quer a guitarra de voz grossa de Cláudia dão bem forma ao corpo.

E se a forma do corpo dos Asneira era esbelta e bem torneada, a dos Katabatic era bem mais musculada, de tatuagens nos braços e barba rija. Os nomes com quem partilharam palcos não enganam: eles vão tocar, vão ter peso, vão-vos abduzir. E é aliás nesse poder, nesse feeling, que se encontra o maior fascínio desta banda. Sabe onde quer ir, como entreter e como criar ambientes pesados. Tocando a seguir aos Asneira, mas principalmente a seguir a Ricardo Martins, a bateria soa-nos sempre mais pobre, mas lembra-nos também que o tempo e o espaço se podem sobrepor ao frenesim, que a música pede ritmo e não fúria. Com duas guitarras muito post-rock, angulares, de digestão demorada, e um baixo absolutamente brutal, na essência mais pura da palavra, os Katabatic levaram toda a plateia embora e trouxeram-na de volta, abruptamente.

Boa noite de música em Coimbra, com duas bandas de valor, e que nos mostrou duas divisões do post-rock. Mais uma vitória da música instrumental. A noite de sexta pode não ter aquecido por aí além, mas levitou um bocadinho.