O olhar divide-se entre palco e o tumulto que nos vai ladeando.Napalm Death é assim: basta que a intro tape de Utilitarian se faça ouvir, para que a adrenalina borbulhe e tome conta da musculatura daqueles que se dispõem defronte às quatro figuras britânicas. “Thirty fucking years”, diz o Barney, recebendo o merecido aplauso pelas três décadas de um grind que nasceu nas mãos de uns putos de Birmingham e que se tornou exportável para os quatros cantos do mundo. Trinta anos de uma impenetrável selvajaria rítmica, que mantem intocável a sua avidez, a sua fome e a sua busca por mais e mais.

É isso que surpreende e satisfaz num concerto de Napalm. Os álbuns acumulam-se nas prateleiras e os predilectos serão sempre os predilectos. Uilitarian, esse, é o miúdo mais novo, mas já se faz soar como gente grande. Faz-se soar e faz suar aqueles que ao fim de duas malhas já parecem sobreviventes da batalha de Okinawa. Por entre chorrilhos de pedidos, e raparigas que berram o nome do Mitch Harris, a banda vai percorrendo toda a sua discografia, recordando o quão bom é o From Enslavement To Obliteration através de Practice What You Preach e deixando claro que os Napalm Death pós-2000 também não são data de deitar fora, ou não fosse Silence is Deafening um malhão e Fatalist uma porrada nos costados.

No caótico vortex que é um concerto dos ingleses, não se ouvem pedidos de tréguas. O que se ouve são cabeças a embater no chão, fruto de stage dives mal calculados, e gente a berrar a Nazi Punks Fuck Off ao microfone, já depois de Suffer The Children eDeceiver terem atraído a atenção dos sismógrafos lisboetas. O encore queria-se ainda mais forte e há gente que não se esquece do quão importante é Scum nesta história toda. No princípio era a escumalha, pois era, e no derradeiro final será sempre ela a recordada. Human Garbage e Instinct of Survival, interpelada pela tão-pequena-que-é-gigante You Suffer, fecharam a segunda noite do Jurassic Fest. Os cartuchos outros que os apanhem.

O resto da noite fez-se em português. Os Holocausto Canibal regressaram finalmente a Lisboa, embalados por uma Gorefilia que continua a encantar os adeptos do grind de tripas ao léu. Pena que o som não estivesse afinado para a ruidosa muralha que a banda de Rio Tinto sempre provoca; e também pena que o cronómetro estivesse apertado em demasia para o set que os Holocausto gostariam de ter apresentado. De limitações também se fez o concerto dos Atentado, que andaram um quarto-de-hora a tentar deslindar os problemas de som no baixo. Obstáculo ultrapassado, a banda lisboeta lá pôde debitar (e bem!) o seu crust à antiga. Por entre o desfilar de músicas do veemente Paradox, tempo ainda para recuperar um tema desses senhores suecos que são os Anti-Cimex, num momento delicioso para os fãs da podridão nórdica. Também os Adamantine puderam mostrar o que têm de novo:Chaos Genesis, o seu primeiro longa-duração. Admirados pela nova geração de thrashers portugueses, o grupo conseguiu um bom concerto (vários foram os corpos que se dedicaram ao mosh durante a meia-hora de actuação) e brindou os fãs do catedrático e veloz riff com Disciple dos Slayer.