Esqueçamos o pressuposto de que todo aquele mundo fantástico que tantas vezes nos surge por imagens de anjos, magia, paisagens cuidadas e onde apenas o bem tem lugar, não existe, e melhor poderá ser entendido aquilo que Julianna Barwick trouxe ao Teatro Maria de Matos. Uma actuação onde apenas o conforto teve lugar e onde toda esta utopia de contornos idílicos marcou presença.

Nesta ocasião a americana tinha a tarefa de apresentar o seu mais recente trabalho, “Nepenthe”. Gravado na Islândia, os sons que nos chegaram não podiam recordar outro tipo de ambiente que não esse. No fundo, um tipo de sonoridade angelical que chegou a estar muitas vezes presente no som dos Sigur Rós, quando eles eram bons. Talvez por o novo longa-duração não ter sido escrito antes de chegar a essa região, se sinta a razão para soar dessa forma e se notar concretamente a influência desse local no processo de escrita. Esse tipo de sensações foram passadas ao longo de todo o concerto. Toda a frieza, a natureza gélida, a luminosidade de quando a noite nunca chega, foram cruzadas ao longo de uma hora.

De início, sozinha em palco, Julianna Barwick reflectiu a importância que tem para si uma composição solitária e, “Offing”, mas também “Labyrinthine”, serviram para um contacto directo com o formato que a tem vindo a acompanhar desde o início do seu projecto. Camadas de voz e efeitos sobrepostos entre si, testemunharam a importância vocal como o único instrumento musical patente. Por mais incrível que possa parecer, quem tenha fechado os olhos e esquecido que era apenas Julianna que estava em palco, terá tido a sensação que seria um coro que se encontrava naquele espaço.

Ao terceiro tema perdeu a sua independência, sendo acompanhada por Helena Espvall no violoncelo e Scott Bell na guitarra, para em “Look Into Your Own Mind” nos fazer seguir o conselho da mensagem do título e reparar que tudo se tornou mais cheio e rico, apesar de a voz continuar a ser a peça principal de uma colecção de preciosos sons. “Adventurer Of The Family” reforçou a ideia de um estranho mundo inalcançável, dando também a noção que nem tudo pode ser perfeito, tornando-se este o momento que maior desolação onírica transmitiu.

O acompanhamento com o Coro Juvenil de Lisboa fez-se em “Forever” e “One Half”, mas foi em “The Harbinger” que o cenário se tornou ainda mais arrepiante com todas aquelas divinas entoações femininas a ecoarem na sala, assumindo quase uma estrutura religiosa. Uma reverberação de vozes que transmitiram a ideia de ser algo em que não pode coexistir pingo de maldade. Julianna Barwick conseguiu fazer essa permuta: uma dupla percepção em que voltamos a ser sonhadores, mas que também nos remeteu para o mundo real, para a pureza e carinho que ainda podemos sentir por tudo aquilo que dele faz parte. Carinho esse reflectido no final com a oferta de uma rosa a cada um dos músicos que a acompanharam.