Não é novidade para ninguém que um disco muito peculiar e vincado, alvo de grandes elogios, pode ser um pau de dois bicos. Se, por um lado, significa que há um reconhecimento da qualidade musical, por outro há a hipótese da fórmula se esgotar rapidamente. Esta ideia aplica-se que nem uma luva à sonoridade de Julianna Barwick.

O disco de estreia, “The Magic Place”, era uma obra de exploração da voz através de loops, numa construção muito própria e em que a parte instrumental não existia ou era reduzida a linhas de piano bastante simples. Um disco lindíssimo, profundamente original, de música sonhadora capaz de nos transportar para uma verdadeira floresta encantada. Quando “Nepenthe” foi anunciado, colocava-se a questão: seria Julianna Barwick capaz de manter o registo anterior sem soar repetitiva, sem parecer mais do mesmo, sem que, passado o deslumbramento com a floresta para onde fomos transportados, não sentíssemos aquela sensação de tédio de quem já viu tudo e tem vontade de voltar ao mundo real? Com pequenas nuances, a prova foi superada e “Nepentheé um belo disco.

Entre estes dois discos, a norte-americana colaborou com Helado Negro no projecto mais pop Ombre, com alguns laivos tropicais. Por outro lado, este álbum foi gravado na Islândia, com a participação de membros e colaboradores dos Sigur Ros, dosMúm ou das Amiina, alguns dos grandes embaixadores musicais do país. Um formato mais perto de canção e o frio nórdico juntam-se no lindíssimo “One Half” e há qualquer coisa do negrume visceral e arrepiante de algum imaginário islandês no magnífico “Pyrrhic”.

Este é um trabalho com mais sons, seja por coisas muito mínimas, ruídos quase insignificantes, seja por loops de instrumentos, onde para além do piano há espaço para pequenos toques de cordas, com violinos ou violoncelos. A principal virtude está em conseguir colocá-los sem que o centro nevrálgico, as experiências vocais de Julianna Barwick, percam a devida preponderância. Trata-se, sim, de encontrar brechas num registo relativamente fechado, permitindo que esta música possa crescer sem perder a sua essência.

Enfim… quando o terceiro disco chegar, não é de excluir a hipótese de haver alguma saturação. Para já, continuamos encantados na floresta idílica de Julianna Barwick.