Confesso que há muito que digo de boca cheia que me irrita a chillwave, que quero que se foda o lo-fi, que o punk está morto e enterrado e que fazer shoegaze nos dias de hoje é só uma forma de mascarar a falta de técnica de gente que, por mais simpáticas que seja, não têm uma capacidade técnica ou inovadora por aí além. Bom, e em parte isso é verdade e por demais verificável num sem número de projectos. Noutros, o benefício da dúvida e história já escrita e gravada em CD (Julian Lynch vai marcar 2011), fizeram-me querer estar na ZDB para atestar o cósmico, o ruído, o silêncio e, também uma história divertida de sete gajos que por acaso têm uma banda e decidiram passear pela Europa a tocar cheios de eco, delay, reverb e outros efeitos resgatados a uma época que agora vive – melhor ou pior – por gente como estes bons rapazes de New Jersey.

Sim, os Big Troubles também lá estiveram, mas coube-lhes a sempre ingrata tarefa de serem os primeiros da noite e, por entre atrasos, dois dedos de conversa mais demorados e um colega afoito com uma dúvida gramatical, apenas deu para perceber que este quarteto se move confortavelmente por entre as linhas já traçadas – e aparentemente inesgotáveis – pelos Guided By Voices. Com toques de jangle-pop e esquissos que pareciam uma festa a precisar de ensaio deram o mote e a boa disposição para a noite. Mas não foram memoráveis. Não quanto o que se passaria a seguir.

É que alguns membros dos Big Trouble, qual pecadores em busca de redenção, voltariam a subir ao palco para ajudar Matthew Mondanile e Julian Lynch. E aí sim, a história foi outra. Mondanile está longe de ser novato nestas andanças da música. Pertencem-lhe os Real Estate e, mais recentemente, Ducktails. Um projecto que ele admitiu construir no seu quarto, com manipulações e loops apoiadas em imagens de verão e recordações de infância. E talvez tenha sido por isso que, no regresso àquele palco que ele conhece tão bem, se sentiu tão facilmente uma onda nostálgica. Sim, uma onda avassaladora de bem-estar (perdi algum tempo à procura de um termo mais chique para isto. Feng shui espiritual talvez?), que até pode parecer difícil de captar por entre a manipulação hipnagógica tão densa. Mas na verdade, é precisamente o som lo-fi, o espectro em loop, os devaneios manipulados e a harmonia tão simples de uma guitarra que embrulha e embebe os refrões e a estética harmónica deDucktails – com Mondanile como mestre maestro – e que nos transportam para outro lado que não ali. Resumindo, a tarefa estava ganha e talvez o lo-fi não seja uma desculpa tão grande assim. Não, pelo menos, se se der uma parte de coração e outra de técnica.

Era pela técnica, pelas ânsias de experimentar “Mare” e “Terra” à superfície e em comunhão que a expectativa para ver Julian Lynch estava nos píncaros. E porque era de todos o que trazia da imprensa a descrição que mais comichão me fazia: lo-fi bedroom. Por outro lado, saber que Lynch é doutorado em etnomusicologia, dava-me uma segurança orgânica que dificilmente iria encontrar nas outras bandas do cartaz. E verdade seja dita… Lynch não desapontou. Se por vezes fazia lembrar Arhtur Russel pela forma graciosa com que cantava, por outro lado era difícil não pensar num legado psicadélico de uns NEU!, por exemplo. O importante e a grande vitória de Lynch é não se cingir a um só registo, quer vocal quer musical. Talvez pelos seus estudos, ou pela liberdade de tocar confinado ao seu quarto, sem preocupações ou obediências estilísticas, a música de Lynch cruza e entrecruza estilos, histórias, estéticas e, acima de tudo, paisagens mais variadas que aquelas que me vêm à cabeça. Sim, também é verdade que em palco, “Mare” e “Terra” surgem mais crus, mais despidos e, se calhar, até pobres. Mas a certeza de que encontra sempre ouvintes na variedade ecléctica e na descontracção espiritual que ele canta, essa, já ninguém lhe pode tirar. Eu pelo menos vou pensar uma vez antes de abrir a boca e mandar estas máscaras da técnica e falta de gosto aparente para uma parte menos agradável.