Haverá melhor elogio a um evento do que sair do mesmo e ter a noção que por palavras será impossível descrever o acontecimento presenciado? Ou melhor percepção do que ter a certeza que uma simples agregação de letras não conseguirá documentar na perfeição aquilo que Julia Holter nos concedeu? De facto, a californiana ofereceu algo a roçar o assombroso, uma mistura de misticismo, ternura e beleza, a que nem os presentes na iluminação da Última Ceia, que se via ao fundo na Igreja, terão ficado indiferentes.

Com a Igreja de St George bem composta – que local único para a organização de eventos, a mostrar mais uma vez a ZDB a acertar em cheio na escolha de uma sala fora do aquário-, Julia Holtersurge no palco pronta a gozar da palavra. No fundo, à semelhança daquilo que será feito no mesmo local, em diferentes ocasiões mas, com certeza, sem a mesma magnitude e eloquência que a autora de Tragedy proporcionou.

Ao contrário daquilo que se ouve em disco, nomeadamente ao nível do mais recente Ekstasis, os sons parecem menos compostos mas com uma primazia total da voz, tornando-se mais intensos, espirituais e especiais. Julia Holter canta directamente para o público, olhos nos olhos, e torna-se quase impossível desviar o olhar e não ser ao mesmo tempo arrebatado pela voz pura, de anjo, com que entoa, por exemplo, Marienbad ou In the Same Room.

Acompanhada por bateria e violoncelo, parecia que a Igreja se estava a tornar num enorme objecto voador, vítima da magia que era compulsivamente transmitida. Os anglicanos terão dificuldade em conceber este tipo de ocorrências, mas as melodias e os cantares mágicos transmitiam essa sensação.

Percorrendo vários caminhos, com a voz imaculada, natural e com aparente pouco esforço, enchia as composições e parecia reduzir todos os percursos instrumentais para planos quase inexistentes. Dois mundos coexistiram, um mundo encantado, dos sonhos e minimal, mas também um mundo fantasmagórico que se exibia através da influência das teclas, maioritariamente quando a norte-americana não cantava. Julia Holter mostrou que estes dois universos podem ser cooperantes e que o profano e o sagrado parecem, aparentemente, ser menos distantes do que se pensava.

Resta desejar que permaneça para sempre o encanto de Julia Holter naqueles jardins e naquela Igreja.