Quando, após um mais difícil e discreto Tragedy, Julia Holter lançou este ano Ekstasis, surgiram as comparações com Julianna Barwick, autora de The Magic Place, uma das grandes obras discográficas do ano passado. Percebe-se a comparação, por alguma beleza celestial que partilham, mas vamos recuar um pouco mais no tempo…

Em 2000, com o fabuloso álbum de estreia Felt Mountain, os Goldfrapp mostraram como pegar numa certa toada esotérica e transcendental e, com manipulação de sons e laivos de trip-hop, transformá-la em extraordinárias canções. Doze anos mais tarde, de forma mais exploratória e menos compacta, Ekstasis enceta um processo semelhante, ao aproximar algum universo zen da música pop, sem entrar no eixo épico de uma Enya.

Os melhores momentos do disco surgem quando as experiências sonoras encetadas têm uma orientação mais definida, seja através do contraste entre o lado mais pueril do início e a belíssima aceleração electrónica em Marienbad, no experimentalismo mais frenético e tribal, marcado pela percussão e pelo saxofone, de Four Gardens, ou no mundo paralelo, entre o bucólico e o sinistro, para onde somos transportados no lindíssimo Our Sorrows. Pelo caminho, há alguns temas excessivamente dormentes e arrastados e um tema, Goddess Eyes, com direito a duas versões. A segunda (Goddess Eyes II, que pode ser a primeira, atendendo a que há uma inversão no alinhamento do disco), segue os mesmos pressupostos de grande parte do disco, com piano, a voz frágil deHolter e sons diversos em progressão, mas talvez seja mais easy-listening. Talvez por isso, para compensar, a primeira versão do tema é mais artificial, mais laboratorial, com a voz surgir fortemente robotizada.

Seja como for, Ekstasis é uma bela surpresa. Pode não ter a emotividade do disco de Julianna Barwick, nem a força, a solidez e a envolvência dramática de Felt Mountain, com quem as semelhanças serão mais espirituais do que propriamente musicais, saliente-se. Mas é um óptimo trabalho, candidato forte a álbum do ano. Num universo terrestre ou paralelo… isso ficará ao critério de cada um.