“Cantamos Pessoas Vivas” brada José Cid, sacudindo da voz o catarro pop que os oitentas lhe traria – culpa, quiçá, do masso de tabaco junto à praia cachimbado. Brada, brada bem, exultante. Puxando ao pescoço, em cada quebra que os Quarteto 1111 há tanto ritmaram, a vermelhidão de quem contente está feliz por avivar as sinfónicas cantilenas de tempos idos. Os óculos, esses, atarraxados à cara sorridente, não mexem. Por muito que o público, nesta noite doutoral no cliché galhofeiro («Faz-me um filho!» ou «Aperta contigo, Zé!»), lhe peça para tirá-los. Ironia: quem acaba a gingar, ao invés das lunettes, é a plateia da Aula Magna. Terminada a progressiva empreitada, capaz de nos fazer crer que as linhas poéticas de José Jorge Letria cairiam bem até nos Strawbs, as filas de corpos inundadas erguem-se na primeira das tantas ovações que se seguiriam.

Íamos com quê? Quarto-de-hora? Sim, por aí, e ia já Lisboa enamorada por Cid. Mas é poliamor esta capital: Chico Martins na guitarra e Augusto Vintém, em palco pai de uma ninhada de teclas, foram certeiros acrescentos para que o revivalismo funcionasse sem um sempre equacionável (e chato) desvio-padrão. Em “Vida (Sons Do Quotidiano”), dona de um prelúdio que nos trinca o coração, e que abriu altiva e encantadoramente a performance (nem a criança universal lá para o meio faltou), tem nas suas linhas um Cid que «não sabe voltar atrás».

E não sabe. A ideia de em 2015 regressar aos ensejos sinfónicos com o há muito prometido “Vozes Do Além” sublinha uma regra do senso-comum: um raio não aborrece o mesmo sítio um par de vezes. Nem quarenta anos depois. Os temas apresentados, e prometidos para um disco conceptual baseado nos versos de Sophia de Mello BreynerNatália Correia, não tiveram outro efeito que não o de deixar a Aula Magna cheia de vontadinha de passar o couvert à frente e exigir o pitéu pela qual o anfiteatro se encheu. Ressoaram àquele Cid das dunas e dos canaviais, desesperadamente à procura de uma mestria criativa que os anos lhe taxaram sem reembolso – pese embora um Chico que deu ares de Gilmour.

Quase sessenta minutos depois, lá vamos nós para onde a cadela Laika foi primeiro. Omnisciente narrador, que à volta de uma moribunda Terra paira, “10.000 Anos Depois Entre Vénus E Marte” mete-nos num vaivém a sintetizadores acolchoado. Aquele compasso introdutório de “O Último Dia Na Terra” desperta na plateia frenesim: há quem na cadeira se balança para trás e para a frente. Outros fazem soundcheck à sua bateria imaginária e afinações de air guitar contamos várias. Os bramidos que se escutam é de quem está ali numa posição intermédia entre realidade e sonho. Sim, passem-se dos carretos!, está mesmo a acontecer. A pérola do progressivo nacional saiu da ostra e veio cumprimentar 2014 com solidez.

Vá, os graves do Zé Nabo, capitão das embarcações de baixo tom, são irrepetíveis e Pepe, que o substitui, tem na réplica dificuldade. A Samuel Henriques, baterista, não lhe encontramos a finessede Galarza. E, pois claro, por muito que a ténue neblina de palco se instale e insista em fazer-se de convidada, jamais a glaciar atmosfera de estúdio se repetirá num concerto. Não são estes problemas de maior para que a evocação se desenlace bonita, apenas contingências que o tempo, esse velhaco que trouxe o digital, provoca. “O Caos” dá toques de pleonasmo ao soar no início atribulada, mas “Fuga Para O Espaço” parece-nos a papel vegetal copiada. Há quem nos píncaros berre «Ai, que eu quero chorar!». E a lagrimita é capaz de a vários ter escapado quando o tema-título se transformou na oração oficial da Aula Magna. Cid pediu mais de uma vez «só uma vez mais» e o clamor foi tal que o colectivo se silenciou para escutá-lo entregue aos versos que anunciam outra civilização. Versos esses tatuados ao fundo, no ecrã, que eficazmente foi estando atento ao espectáculo com o artwork do lançamento original. Assim que “Memos”, a nossa “The Great Gig In The Sky”, amainou, outra ovação se alçou. Tão forte esta que, sem outra chance, obrigou todos os músicos a deixarem a vénia para depois.

encore suspirou num bis. Feito de “O Caos” (agora com um início mais seguro) e “10.000 Anos Entre Vénus E Marte”, onde, obviamente, Lisboa de pé ficou para a cappella entoar as sentenças-chave de um álbum que teima em ser celebrado pelas franjas. «Venham-nos ver a Vilar de Mouros. Para o Rock In Rio somos demasiado fraquinhos.», disse-nos o Tio .