A luz separa-nos entre a escuridão e a claridade.

A luz é muitas vezes representada como sendo vida, assim como a escuridão oferece um refúgio para vários temores. Apesar de haver aqui um antagonismo, ao olharmos para a capa de “Light Divide”, verificamos que uma não vive sem a outra. Como se a nossa felicidade não fosse mais que um repetido acender de luz, ou a nossa tristeza não fosse mais do que o desligar momentâneo da mesma.

Seguindo a mesma perspetiva, Jon Porras a solo não pode ser desassociado dos Barn Owl, onde tem criado drones formados em pilares de guitarras (juntamente como Evan Caminiti).

Em “Light Divide” os drones persistem, assim como ambientes onde a fisicalidade e o espaço afirmam-se a cada ritmo, a cada pulsar da eletrónica. A música de Jon Porras recorre a uma arquitetura minimalista, permitindo que os sons se propaguem em ecos e vibrações, criados num cenário urbano e para além do cenário desolador que inspirou o dubstep. O recurso a sintetizadores modulares permite que se encontrem frequências/sons “livres” e difíceis de definir, mas que se encaixam perfeitamente na dicotomia belo/estranho. Se tivesse que estabelecer pontos de referência num mapa que permita chegar até à música de Jon Porras, diria que poderíamos passar porFennesz, Ben Frost, Tangerine Dream e Suzanne Ciani, entre outros.

Aqui a palete sonora, através dos vários sons digitais e analógicos, adquire um corpo sonoro artificial, para o qual contribuem ritmos distantes, um baixo arrancado do subsolo, música techno minimal e alguns ruídos que são minuciosamente esculpidos por entre as melodias, seja através de algo que parece tocado em aço, ou algum ritmo prolongado através de tubos.

A imagem da capa foi tirada na Maison La Roche, desenhada nos anos 20 por Le Corbusier e Pierre Jeanneret. Nessa altura já se arriscavam as curvas do avant-garde, procurando ir para além das normas pré-estabelecidas. Saint Simonian foi um dos primeiros a pensar a palavra avant-garde, através do ensaio “L’artiste, le savant et l’industriel” em 1825 (“O artista, o cientista e o industrial”). Muitas décadas depois, o mesmo título mostra-se como ideal para definir a música de Jon Porras, que compôs um disco com uma considerável expressividade (luz), aliada à experimentação (ciência) e à fisicalidade dos sons (indústria).

Devido ao carácter minimal deste disco, recomenda-se algum isolamento e tempo (algo difícil nos tempos que correm) para que se possa absorver todos os poros destas composições. O que nas primeiras audições pode parecer demasiado repetitivo, rapidamente se mostra como profundo e merecedor de prolongada investigação.

“Light Divide” para além da confirmação do talento de Jon Porras, apresenta-se como uma obra artística que procura edificar através dos sons, o infinito e o concreto.