Black Mesa é o nome de uma vasta região desértica do Arizona, transformada na tela sobre a qual Jon Porras pinta o seu novo registo a solo. A existência nesse local de áreas pertencentes a Apaches e Navajos não é uma mera coincidência, visto que Porras passou dez meses a compor e a modificar sons com duas ideias em mente: imaginar uma banda sonora de um Western, e representar musicalmente um equivalente no deserto do Black Lodge criado por Lynch em Twin Peaks.

Apesar de menos atmosférico do que Undercurrent, o seu álbum anterior, os nomes das músicas ajudam a criar imagens claras que nos levam a transcender o meramente sonoro e a tentar visualizar uma Candlelight Mirage ou o deserto rochoso sob os nossos pés durante Desert Flight. O som da guitarra impera claramente, com o seu timbre metálico mas suave que já nos é bem familiar de Barn Owl. Se Undercurrent se aproximava mais de Shadownland, Black Mesa assemelha-se antes a Lost in the Glare ou Ancestral Star, mas com uma estrutura um pouco diferente. Into Midnight é a primeira música do álbum e, sendo a mais longa, permite-nos perceber o processo de composição de Porras neste álbum, criando sempre linhas melódicas na guitarra em torno das quais preenche o espaço com fuzz, feedback, e os outros efeitos característicos do drone, sem negligenciar a beleza harmónica que duas ou três linhas simples, em simultâneo, podem criar.

Não existe, porém, uma só ideia para cada música: uma nota final pode ser deixada a soar até se desvanecer naturalmente, e surgir então um tema bem distinto. Poderá por vezes parecer que não existe um fio condutor, mas é frequente as melodias aparecerem e desaparecerem enquanto os drones e outros sons ambientais permanecem, sempre em perfeita harmonia, mantendo-se assim a coesão das composições. É um bom exemplo de como construir um álbum através de camadas, algumas pensadas e algumas improvisadas, e saber quando parar. Mesmo a pandeireta que surge em momentos muito isolados é mais do que um simples acessório, e evoca as tribos dos índios da região. Porras não pretende recriar um Western de Sergio Leone ou mesmo de John Ford, mas antes um no qual índios e cowboys beneficiem mutuamente de um encontro e elevem as suas culturas a um novo patamar.

Por muito paradoxal que possa parecer, músicas como Blue Crescent Vision podem soar mais melancólicas do que qualquer uma de Dreamless Sleep de Caminiti e, no entanto, menos niilistas. Podemos perder-nos neste universo, mas ele está lá para ser explorado, vezes e vezes sem conta. São 47 minutos que duram horas. Mas, quando a viagem é boa, quem tem pressa em terminá-la?