Noite de música no Teatro Maria Matos, Jon Hassell já o conhece. Vem pela segunda vez e traz consigo Sketches of the Mediterranean – peça que celebra Gil Evans, norte-americano que sempre revelou grande proximidade musical com a lenda do jazz Miles Davis. Com esta performance aproxima-se mais ainda, inspirando-se directamente no consagrado Sketches of Spain, obra que foi fruto da colaboração entre Miles e o nome exortado neste novo trabalho de Jon Hassell.

Pano preto como fundo, Jon Hassell entra sem manifestações tal como os três músicos: Rick Cox (guitarra, efeitos), Michael Benita (contrabaixo) e Kheir Eddine M’Kachiche (violino), todos eles envergando roupas negras. As luzes do teatro vão-se apagando e as que permanecem acesas, dirigidas ao palco, são muito ténues. Sabe-se que Hassell é conhecido pelo misticismo e o ambiente está então criado. Também conhecido pelo seu jazz recheado de minimalismo e ambientes criados electronicamente, é em cima desses ambientes que a música é conduzida. Como se fosse a linha temporal de um estado de espírito, não é estável: normalmente é calma e de repente irreverente e esguia.

O primeiro ambiente a ser introduzido inicia-se com o ritmo de batuques que lembra Flamenco Sketches, mas estes batuques soam a tribo africana, ouvindo-se outros sons saídos da distorção de Rick Cox. Uma espécie de ritmo base é estabelecida: uma tela incompleta sobre a qual os músicos vão lançando breves pinceladas de jazz, principalmente Jon Hassell e Michael Benita, sem que no entanto se cruzem entre si. O violino surge também breve e, em alguns momentos, traz consigo uma sonoridade indiana que, tal como os ritmos africanos, se encontra frequentemente no jazz de Hassell.

As luzes, apesar de poucas, vão aumentando no decorrer da actuação, por vezes tingindo-se de azul ou vermelho. Tal como por vezes surgem sons imperceptíveis e estridentes que contrastam com o ambiente induzido, decompondo-o e transformando-o muito lentamente noutro. Em dada decomposição, um dos instrumentos insurgiu-se contra o silêncio que se aproximava: foi o violino de Kheir Eddine M’Kachiche numa introdução, para logo de seguida Michael Benita estabelecer o ritmo numa linha de contrabaixo que foi, também ela, a primeira da performance. Um ritmo alvo de vários solos de Jon Hassell, momento que até então foi o que mais lembrou o tradicional jazz, não fossem as usuais distorções lançadas por Rick Cox. É com elas que a dada altura o som começa a esmorecer, juntamente com um eco da trompete de Hassell em loop, até se fazer pela primeira vez silêncio.

Os aplausos e a saída de palco, a ovação contínua e vigorosa; ouvem-se até dois assobios de uma plateia que devia caber em metade das cadeiras da sala. Os músicos retornam ao palco, fim de nova salva de palmas e Benita faz-se ouvir a solo, num ritmo que poderia bem ser o loop de uma música rap, se fosse mais rápido. A linha de contrabaixo vai sendo adornada aqui e ali pela distorção da guitarra de Rick Cox, ou por breves brisas de violino, enquanto Jon Hassell lança com frequência solos da sua trompete. Performance de celebração a Gil Evans, que começou com um minimalismo mesclado de jazz, irá terminar com um jazz mesclado de minimalismo: num longo e belo solo vindo da trompete de Jon Hassell. Agradecimento breve, também ele minimalista.