Admito: a expectativa para o concerto de John Maus na ZDB era muita. E não era à toa. O norte-americano é o responsável pelo álbum mais negro e ao mesmo tempo apaixonado e apaixonante deste ano (sim, falamos de We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves). Em casa, a evocação gótica de Maus entrelaça o espírito etéreo de Gary Numan com as linhas sintéticas desenhadas pelos Suicide no seu álbum homónimo. Tudo isto numa embalagem cheia de pinta e carisma com os trejeitos camaleónicos de Bowie, um pouco na mesma leva hipnagógica (o termo que deu azo a doutoramentos em 2010, mas provavelmente não irá sobreviver para lá de 2011) de Ariel Pink e companhia. Estão a ver a ideia? Pois bem, esqueçam-na.

Em palco, John Maus não precisa de mais do que cinco minutos para desvirtuar quase tudo aquilo que pensamos dele quando o ouvimos em casa. A culpa não é da música, já que essa, samplada ou gravada, continua no ponto e carregada da ebriedade e sujidade que lhe conhecemos. Não, a culpa é do próprio Maus e do seu acto encenado. Na ZDB, John manteve-se afastado do pós-punk engalanado dos discos e embarcou num doloroso e estranho número de karaoke – ou, neste contexto, karaoke avant-garde.

“Faz tudo parte do espectáculo”, dirão vocês. “Tem de fazer”, respondo eu. Aquele voice-over dava um fôlego extra a toda à actuação – e um fôlego literal. De outra forma Maus mal poderia teria aguentado o concerto inteiro. Quando mencionei que Maus se desvirtua quase na totalidade, não foi em vão. Há algo que se salva dos discos e que chega a ser exponenciado em palco: a sensação de catarse. Mas Maus não se limita a vivê-la pela música, mas antes pela forma irrequieta e violenta como se movimenta, como grita e como se atinge com os punhos cerrados.

Esta presença pareceu ser carismática o suficiente para que muita gente no público não reparasse no truque do playback – ou simplesmente o ignorasse – e se deixasse levar euforicamente pela música e assim se entregasse à catarse com o cantor. Mas era inevitável não me sentir defraudado – da mesma forma que era inevitável não ter os queixos caídos de perplexidade – de cada vez que me apercebia que Maus se limitava a tentar acompanhar a sua própria voz gravada, sem fôlego e exausto. Exausto de tal forma que, à excepção de Rights for Gays, nenhum tema sobreviveu até ao seu final, com Maus a parar a gravação prematuramente para recuperar o fôlego.

Ao vê-lo ali, a gesticular de forma epiléptica e violenta, acabei por me sentir como se estivesse em casa a ver um vídeo de fitness caseiro brilhantemente musicado nos anos 80 que só continuamos a ver por curiosidade mórbida. Vou continuar a apaixonar-me pelas músicas do Maus, vou continuar a admirar a atitude de possuído em palco, mas vou sentir-me para sempre defraudado com aquilo que ele é em palco. O eco que fica não é o de Quantum Leap, mas de uma piada tão boa como o concerto: “Já foste a concertos maus? Então não vás ver o John Maus”. Sim, foi uma ironia.

Antes ainda de John Maus subir ao palco, a ZDB deu oportunidade a Lisboa para testemunhar a música de mil e uma camadas de Gary War. Os ânimos aqueceram até ao morno, já que o público parecia estar já demasiado expectante para o show físico à la Buster Keaton que se seguiria. Assim, o pós-punk tropical arrefecido por problemas técnicos de War passou ao lado de quem enchia a ZDB àquela hora. E passou ao lado do PA’ também.