Sempre com a pontualidade nórdica da Casa da Música, pouco passava das 21h30 quando as luzes da Sala Suggia se apagaram para se ouvir o aviso típico da captação da imagens e, este sim, o nunca insuficiente pedido para que se desligassem os irritantes toques dos telemóveis.

Alasdair Roberts, solitariamente acompanhado pela sua guitarra, surgiu em palco para, timidamente, embalar a audiência com as suas melodias feitas em cordas de aço. Foi, de resto, este som metálico na guitarra acústica do escocês que acabou por completar uma actuação calminha, que estaria votada à limpidez aborrecida do nylon, dadas às suas virtudes no instrumento.

Assim, com um engano aqui, e uma corda mal carregada acolá, com o som vibrante da sua guitarra, Roberts cantou as suas músicas claramente influenciadas pela cultura celta e conseguiu encantar uma boa porção do público que, em dada altura, conseguiu enfrentar o medo do silêncio imposto pelas baixas decibelagens da sala (as ideais, salvaguarde-se) e acompanhar o cantautor num sing-a-long de “lalas”. Não raramente, o músico britânico, com o seu registo próximo da anfitriã da noite, lembrava-me mesmo os músicos mediavais, cantores de contos sobre a realeza e os seus feitos, o tipo de músicas que não raramente surgem nos filmes épicos e embevecem.

Como uma princesa, de estatura pequena e vestido de saia plissada, Joanna Newsom apresentou-se no pleno da sua simpatia e, claro, da sua mestria. Inicialmente acompanhada pelo guitarrista Ryan Francesconi, responsável pelos arranjos do mais recente álbum, e por Neal Morgan, que compôs as percussões, e, mais tarde, por um trompetista e duas violinistas, a compositora norte-americana dedicou-se a apresentar o tripolar Have One On Me, com as suas variações entre a pop sem manias e um avant-garde perfeitamente hipnótico, como se sentiu durante a quase-Genesis Easy, relembrando-nos os melhores momentos de álbuns como Selling England by the Pound ou Foxtrot.

Saltitando entre a harpa e o piano, Newsom tocou durante quase uma hora e meia, intercalando músicas com a sua simpatia radiante, sem ter deixado de lado o álbum de estreia Milk-Eyed Mender e o aclamadíssimo Ys, com a bela Cosmia. E, durante essa hora e meia que passou quase a correr, a sua voz não falhou, assim como a sua performance sentada atrás da imponente harpa não teve mácula, apesar do valente “acidente” durante a primeira música do encore, arrancado com uma ovação de pé, desculpado, uma vez mais, pelo seu tacto com a audiência.

De forma quase incrível, Joanna Newsom, princesa do freak-folk, mostrou porque é que já transcende o género desde o seu álbum Ys, com arranjos a elevarem a fasquia de álbum para álbum, e, como se pôde ver na Casa da Música, de digressão para digressão. E, pela forma como deixou o público, será um concerto para recordar.