São aborígenes na cosmopolice de Nova Iorque os Cult Of Youth. Aparecem-nos à frente como bastardos de cabelo lambido, uma orgia visual entre os Sioux e a plateia perdida de um qualquer concerto de Blood Axis. A meio caminho entre o pós-industrialismo que acordou o Douglas Pearce e a palidez barbeada não burguesa dos Smartpils. Surpreende pouco que os Cult Of Youth nos lembrem tanto – eles arrastam história nas botas de cabedal e o Sean Ragon, em Lisboa sempre à beira de deixar que o fôlego lhe fuja sem licença, passou a adolescência trancado com álbuns da Mortarhate. Agora tem uma loja de discos.

E uma banda que se deixa enforcar pelas próprias visões de um apocalipse quase, quase a acontecer – talvez já neste “Winter“; aceitam-se apostas. Esse cataclisma de travo a incenso ancorou-se no RCA porque ao vivo os Cult Of Youth misturam a franqueza punk com o equilíbrio que lhes abre os pulmões para fazer crescer “Sanctuary” ou “Empty Fiction”. Entende-se a razão de ali estar o violoncelo – algo nem sempre claro em álbum – e vemos “New West” e “Sanctuary” gordas, de camisa desabotoada, pelos gulosos arranjos que vão metendo à boca. Na iminência de uma convulsão pagã, pela acústica retalhada que nos põe premonições à frente, Ragon enfileirou os fantasmas certos para haver Jex Thoth.

Por ela, o tal apocalipse já aconteceu nas barbas ocultas do tempo. Precisá-lo é impossível, mas talvez a Jinx Dawson saiba contar melhor a história. Distinta interlocutora dessas cartas que a Process deixou ao mundo, onde bem e mal convergem numa sexualidade litúrgica, Jex faz do palco o vórtice da mediunidade. O pórtico. Deita-se, arrasta-se, prostra-se nele. Derrama-lhe cera como se todas as velas escondessem um segredo de sangue. Nunca temos a certeza se é ela ou outrem ali, mesmo quando decide caminhar entre a plateia como peregrina maldita de Timothy Wyllie. A música vive para suspendê-la, levitá-la, adornar-lhe a voz sem desafino. À cerimónia o que é cerimonial.