O trabalho para Cinema experimental de John Zorn ocupa uma zona de destaque na sua obra. Foram algumas destas peças que Zorn apresentou no seu segundo concerto do 30º Jazz em Agosto da Fundação Gulbenkian, no passado dia 3 de Agosto. Foi também a noite mais morna das três com o que o compositor norte-americano presenteou o público português.

No palco notávamos imediatamente algumas alterações: uma enorme tela branca cortava a vista para o jardim da Gulbenkian, Ikue Mori estava em palco com o seu computador e outras electrónicas, e o saxofone de Zorn brilhava no chão. Os filmes exibidos e musicados eram da autoria de Joseph Cornell, Harry Smith e Wallace Berman, obras cinemáticas não-figurativas, abstractas, fragmentadas. A música de Zorn assenta que nem uma luva nestas experimentações, quer seja em formato de banda inteira, quer seja apenas Ikue Mori e Jamie Saft – sempre com a supervisão de John Zorn.

Os ambientes criados foram de grande densidade, ora melódicos ora dissonantes, revelando as criações de vanguarda do compositor norte-americano. Os estilos trabalhados foram tão diversos como as obras visuais apresentadas, e no último segmento Zorn finalmente pegou no seu saxofone e os seus uivos estridentes puderam ser apreciados. Não terá sido pela música que a noite se revelou menos entusiástica, mas sim por uma sobreposição de factores: o posicionamento da tela impedia que todo o anfiteatro pudesse ver com qualidade os filmes projetados, levando algumas pessoas a sentarem-se nas escadarias e a movimentos constantes de gente; a presença da banda no palco impedia o total visionamento dos filmes, ou, se quisermos, pelo contrário, a presença dos filmes impedia uma visão clara para os músicos; a descontinuidade entre os filmes e, consequentemente, a descontinuidade musical tornaram o espetáculo menos orgânico, menos como uma força em permanente movimento em todas as direções.

As lembranças da noite anterior e a expectativa para os Electric Masada restringiram o Essential Cinema apresentado por John Zorn, mas não impediram que, apesar de tudo, tivessem existido momentos brilhantes, nem tão pouco que o público demandasse mais uma viagem, mais um filme, mais uns instantes singulares.