Foi na semana passada, que os Japanther, famoso duo de punk-rock, oriundo de Brooklyn, nos saudou com a sua estreia em Portugal, logo para duas datas na Invicta e na Capital. Entre suores, energia a pontapés, risos e ansiedade, o que se verificou foi uma verdadeira descarga eléctrica, que, aliás, já era esperada. Numa altura em que o chillwave lo-fi parece ser a palavra de ordem, o beliscão do punk em forma de carícia musical soube bem, soube a amor, soube a Japanther. Em baixo, ficamos a saber como é que decorreram os concertos no Café Au Lait e na Galeria Zé dos Bois, com muito ‘ice-cream’ pelo meio.

19 de Janeiro, Café Au Lait, Porto – Acreditar no rock’n’roll e nos reverbs, sem regras

Em noite lua-cheia, dois cabeludos – um mais do que outro – decidiram quebrar lascas na parede da velhinha cave do Café Au Lait, no Porto, bem-acompanhados pelos Shellshag. Porém, a noite começou com travo a stoner-rock, ou, se preferirem, a uma mistura da melhor colheita que o rock contemporâneo nos trouxe. Falamos, então, dos Throes, um power-duo que conseguiu desempenhar o papel que se requeria: colocar o público na mood que os concertos que se seguiriam necessitavam. Este foi, aliás, o melhor concerto que vi, até à data, dos portuenses, mais uma das bandas na alçada da editora e promotora do espectáculo, Lovers & Lollypops.

Aos frenéticos Shellshag, competia abrir alas para os esperados Japanther. E o duo não desiludiu, pelo contrário, foi um caso sério de sucesso e uma agradável surpresa. Mesmo depois das apresentações selvagens com que os norte-americanos nos brindaram, o público ainda estava tímido, por isso foi convidado a chegar-se ao palco. Tendo uma bandeira ambulante por trás, que alguém se sacrificou por amparar durante todo o espectáculo, os Shellshag decidiram esbofetear-nos com cerca de quarenta minutos do consolo das distorções e dos reverbs. Estes dois meninos são livres e ver uma actuação deles é sinónimo de liberdade, retrato da chamada geração ‘all star’, sendo essas as palavras de ordem, gritadas entre improvisações com o nome dos Japanther ou com temas como 1984 ou Kiss Me Harder. As suas guitarras são sujas, mas, também, ninguém disse que eles vinham para Portugal fazer limpezas; quanto mais não seja, limparam-nos a alma. Apesar de o público não ter estado à altura (pedia-se mais movimento, mais interacção), os Shellshag fizeram a festa para eles próprios: saltaram, pularam, berraram, andaram pelas colunas, com tempo para nos deixarem um chavão: Fuck sobriety, fuck everyone.

Às vezes, é difícil morar na cidade, contam-nos os Japanther. Por isso, se calhar, a melhor solução é mesmo ser rebelde, acrescento eu. E os Japanther são-no à sua maneira hiperativa e alucinada, quase anacrónica, com o legado que os Sonic Youth e que os The Clash nos deixaram. O concerto do grupo de Brooklyn iniciou-se com um desabafo gritado das entranhas “queremos que as raparigas se cheguem à frente, queremos ir para a praia sem roupa depois do concerto”. Eu, pequenina (mas vestida!), lá fui, com os Shellshag e os seus espalhafatosos guizos dos pés a ‘curtirem bué’ ao meu lado. Não há regras neste concerto, mas sim muitas samples, muitas camadas de distorção, sons estranhos, microfones em forma de telefone e efeitos vocais. Esforço e dedicação escorridos a suor, bateria pujante e headbanging geral compõem a figura quase lasciva – tabus também não existem para os Japanther que abordam o sexo como se comessem um gelado, um Rock’N’Roll Ice-Cream – deste concerto, que se centrou no último disco do duo, com She’s The One em expoente da noite. Antes de se irem embora, há um momento de praia – será que eles chegaram a provar o travo da costa portuguesa? – banhado a Surfin’ U.S.A., dos Beach Boys e outra mensagem política “Fuck the government of United States, fuck the government of Portugal, we hate the government, but we love Portuguese people”. Em pouco mais de 30 minutos, os Japanther, que não estiveram Alone In The Basement, deixaram já saudades. Que voltem rápido. A.B.R.

20 de Janeiro, Galeria Zé dos Bois, Lisboa – Em disco quebram barreiras, ao vivo quebram tudo o resto

Punk is not dead, bem se costuma dizer. E é claro que não está. Com bandas como os Japanther, como é que poderia estar? Com bandas que ainda conseguem fazer concertos assim, numa festa que ocorre tanto em cima do palco como fora dele, como é que o Punk poderia, alguma vez, estar morto?

O que os Japanther fizeram foi uma pura corrente de energia que durou cerca de uma hora, representativa de tudo o que de melhor o punk e o punk-rock (se insistirmos em traçar uma distinta linha entre os dois, claro) nos pode fazer sentir. À primeira música havia moche, à segunda crowd-surfing, e à terceira uma das colunas do palco teve de ser mudada de lugar dada a insistência da juventuda apoteótica em entrar pelo palco dentro (a banda não se importava nada). E foi assim ao longo de uma hora, com uma bateria e um baixo a criar uma muralha sonora que manteve em constante movimento uma ZDB cheia.

A noite, diga-se, começou logo muito bem com os Shellshag, o duo que tem acompanhado os Japanther na actual digressão. Ele na guitarra, ela em pé nos tambores (usou uma única vez um prato, que estava mais à direita do palco), com guizos no cinto e no sapato para encher ainda mais as músicas com saltos e batidas de pé. Punk-rock minimalista e simples, sempre directo ao assunto. Têm um som estranhamente divertido e agradável, que nunca chega ao apoteótico mas também nunca chega ao calmo; nada disto uma falha, diga-se. Aqui não se pedem apoteoses nem moches (isso viria depois…), pedem-se antes um som energético mas encolvente, com músicas que, por vezes, são até… bonitas. Maravilhosa primeira parte, e um projecto a acompanhar com muita, muita atenção. Que regressem cá, desta vez a solo.

Pouco tempo depois, entrava o outro duo, o mais desejado da noite. Ian Vanek Matt Reilly, o primeiro a dirigir-se para a bateria, o segundo para o baixo. Ian entra logo em tronco-nú, com ar suado que viria a intensificar-se ao longo da noite, e Matt tem alguns problemas de início com os fios do baixo (durante os quais Ian nunca, nunca pára de tocar), mas que não tardam a estar resolvidos. Cantam para auscultadores de telefone, que dão às suas vozes aquele som lo-fi que em disco tanto em encantam e ao vivo tanto energizam, e mal começam a tocar é como se do nada o chão estivesse electrificado. Ao vivo, mantêm aqueles samples por vezes cómicos com que regularmente começam as suas canções, com a banda a imitar até de forma engraçada o que se ouve nalguns deles; acabam por resultar como pequenos interlúdios, que servem como uns segundos para recuperar o fôlego antes do início da canção que se segue. Estão sempre de sorriso na cara, e nós também.

A festa, como se disse, foi imediata, com o público a levantar os pés do chão logo ao primeiro acorde. Rapidamente se juntou do lado da fora da ZDB, perto da janela que dá para o palco e arredores, um pequeno grupo de gente que observava com um sorriso aqueles jovens ali dentro, a fazer crowd-surfing do palco e a atirarem-se uns contra outros, a atirar garrafas de água e pedaços de roupa pelo ar (a certa altura, uma camisola atingiu Ian, que simplesmente disse com um riso trocista: “Hah! My shirt now!”) enquanto dois outros tipos tocavam sozinhos de cima dum palco tão próximo do público (para todos os efeitos, concertos destes só mesmo na ZDB ou numa sala igualmente íntima). O vidro da janela, esse, não tardou a ficar embaciado.

Sempre sorridentes, sempre com uma energia que era retribuída por parte de quem assistia ao concerto. Foram fazendo zigue-zague pelos álbuns, tocando aquilo que se queria ouvir, com uma bateria e um baixo que não falham, adornados por aquelas duas vozes. A recepção do público foi sempre de puro agradecimento e devoção, e foi até surpreendente ver a forma como alguns tanto cantavam aquelas letras que, diga-se, são do mais divertido e contagioso que há. Tão bem que soube gritar a altos berros “RIVE-E-E-EEERRRR PHOENIIIIIX!” em… bem, River Phoenix, ou cantar a plenos pulmões “CHALLENGE AND OPPURTINITY!! RISE ABOVE THE SMOKE AND DEBRI!!!” em Challenge, facilmente dois dos grandes momentos da noite. Surfin’ Coffin foi outro, com o baterista a anunciar que “Vamos à praia!” antes de se atirar de cabeça para outra canção que pôs todo o público com os pés fora do chão. E o final, aquele monumental final, com The Dirge alongada e tornada épica, com aquelas magníficas frases, “I love you/No matter where you spend the night/ You can always come back to me/ Because I’m nothing and you’re everything”, cantadas por um público mais que satisfeito, numa canção que há-de merecer a designação de “clássico” daqui a uns anos. Nunca pararam, e cada canção manteve a energia da que a precedeu. Sem falhas, com uma banda que sabia bem o que queria dar a um público que sabia bem o que queria receber.

Punk é isto. É energia, é minimalismo sonoro transformado em maré de som, é juventude com um sorriso na face. Concertos como os de Japanther, que são puras demonstrações de alegria através de moches e afins e que põem em puro estado de felicidade mesmo de quem normalmente nem gosta dessas coisas, começam a ser raros. No palco, dois rapazes com um sorriso na face; fora dele, umas quantas outras dezenas de jovens com esse mesma expressão. Visão rara, que reflecte por si só o melhor do estilo musical. Os Japanther provaram na ZDB ser do melhor do género, numa noite de puro triunfo do punk (meu Deus, eles até a Hey Ho, Let’s Go!, dos Ramones, tocaram!). Ao vivo vão mais directos ao assunto que em disco, provando estar ali para dar simplesmente uma noite em que qualquer um pode saltar, gritar, e nadar por cima de uma multidão, enquanto se ouvem belas canções que mantêm ao vivo a qualidade que tinham em disco. Querem-no, e conseguem. Exclente concerto, dado numa hora em que nada existiu além de nós e aqueles dois tipos que nos fizeram suar e que suaram para nós; um único momento de pura alegria que se estendeu por vários longos minutos. O Punk não está morto, de facto. Com osJapanther por cá, como poderia estar? G.T.