Jan St. Werner - "Miscontinuum"
8Thrill Jockey

Tenho uma paixão diletante pela música abstracta. Eminentemente não-beligerante. Quietinha no seu canto como a vizinha que escuta o brutamontes do segundo esquerdo a esquartejar o sobrolho dapatroa. Zás!, e o sangue escorre carpete adentro. Não há detergente que valha. Temos de apostar na prevenção. E na sensibilização. E nos outdoors. E no policiamento de proximidade. Quem não quer um bófia que lhe vá buscar um pacote de leite e lhe diga que amanhã é outro dia, enquanto o walkie-talkie apita, apita, apita que nem um canário de olheiras profundas? Bip, bip.

Uma jorrada de bips é o que St. Werner tem aqui, impressos – osbips – em vapor de chá com sabor a scones. É música de lanche, que não desgrenha cabelos – e o seu é tão arrumadinho. Há um simbolismo que me tenta capturar enquanto abro o frasco de geleia para afogar o croissant em abraços de glucose: é o libreto do Markus Pop, declamado entre estações e encenações. Talvez seja a voz do profeta Dylan Carlson declamando-o. Recuso entendê-lo. Julgo-o como produto ex nihilo; vindo do nada, residindo no nada, indo para o nada. Liminarmente pós-póetico. Estamos no abstracto e ao abstracto gosto de juntar o absurdo. É como atirar orégãos de lábios traçados num cheddar derretido pelo forno oval.

«Why always the need to explain everything, and from every angle?», pergunta-nos a “Scéne 2”. Respondei vós, que estou de barriga farta.