No momento de entrada na sala do Musicbox, o aviso “o volume do concerto de Tim Hecker poderá ser superior a 120db”, só conseguia assustar aqueles que não estivessem a par das experimentações do canadiano em torno do ruído. Assim, sozinho perante a sua mesa de diagnósticos, acompanhámos a subtileza com que efectuava o processo de colagem e de construção permanente de sonoridades. Não é normal que se consiga descortinar neste tipo de experimentações uma convicta beleza, no entanto, desde cedo, mostrou essa capacidade e, mesmo que o impacto das suas peças seja imenso, a utilização do órgão foi permitindo a diáspora de sentimentos.

A escuridão em palco, apenas interrompida pelo holofote permanentemente projectado à mesa de Tim, conferiu um toque cerimonial. Mesmo que a melodia não tenha sido requisitada para a solene ocasião, a massificação de camadas, a exaltação e a sua saturação, conseguiram transmitir um perfeito desconforto. Hecker é um desses construtores que conseguiu imperar sob a transmissão e propagação do incómodo e da permanente repetição. E é por aí que se tem de pegar: não há que esperar uma constante circulação e incremento de sons. Estes foram poucos, mas explorados na sua plenitude.

Mesmo que reconheçamos alguma transformação apenas decorrente da sua presença em palco, não foi difícil testemunhar que a maior parte das estruturas provinham de “Virgins – actual disco maior de toda a sua discografia -, através da catarse da programação dos sons de órgão, sobre os quais, na maior parte do tempo, destinou o ruído como acompanhamento, dando-lhe um toque humano e sentido, tal como ouvido no seu último longa-duração.

A tranquilidade, não só como se posiciona por trás das suas armas sonoras, mas também dos seus movimentos, acabou por não bater certo e conferiu a contradição à intensidade das suas composições. Contradição essa que, muitas vezes, fez questão de desmistificar. Tim Hecker conseguiu na sua ambientalidade transformar o intenso em sereno e, a forma como se despediu com uma ligeira vénia, formulou a ideia que no tumulto podemos encontrar a paz e uma positiva absorção.

Mais fotografias da noite, incluindo as performances de MoonfaceMedeiros / Lucas, podem ser vistas aqui.