A noite prometia uma espécie de viagem sensorial através da música electrónica, percorrendo de forma imaginária outros espaços do Universo ou outras fronteiras existenciais. Chegamos à segunda metade do alinhamento e ficamos com a ideia que o planeta virtual para onde nos deslocámos tem traços aterradores e outros profundamente dormentes. Não são boas notícias.

Torna-se difícil encontrar qualquer vestígio de amor ou de uma emoção minimamente positiva no som de The Haxan Cloak, projecto a solo do britânico Bobby Krlic. Ouvem-se batidas maquinais duríssimas ou graves diabólicos, em simultâneo com diferentes camadas de ruído e espaços ambientais verdadeiramente desoladores. Não há sinais de melodia nesta música pós-apocalíptica, com um alcance criativo próprio de uma distopia particularmente aterradora. Não bastava o som, há ainda uns focos de luz que, para quem se encontra na parte da frente, provocam um incómodo intencional. Uma experiência perturbadora, um verdadeiro filme de terror… vamos ter pesadelos com a música (no sentido lato do termo) de The Haxan Cloak.

Seguiram-se os compatriotas Darkstar e, apesar do nome, esperava-se algo bem mais luminoso e melódico. Até porque “News From Nowhere” é uma bela descoberta de 2013, aprimorando a pop electrónica negra de “North” com grandes canções, como a beleza simples da balada “A Day’s Pay For a Day’s Work”, a melancolia mais densa de “Young Heart’s” ou o tom ligeiramente festivo, muito Animal Collective, de “Amplified Ease”. Contudo, se por vezes nos queixamos de que há coisas ao vivo demasiado coladas ao original, aqui a situação é completamente inversa. A propósito do último tema referido, este contou com uma longuíssima introdução recheada de sons em progressão e uma voz muito mais cavernosa. Resultado: todo o potencial dançável foi ao ar. É uma marca que percorreu o concerto do trio: tudo muito técnico e pleno de improvisação, com versões muito mais extensas, numa espécie de jam session electrónica. Há um excesso desmedido de sons, entre  sintetizadores e ruídos bem mais caóticos do que em estúdio, e sente-se a falta da emoção orgânica que atravessa a maior simplicidade do disco. Se juntarmos a isto uma postura em palco distante e quase snob, não espanta que a desmobilização de público tenha sido gradual ao longo do concerto. Uma desilusão.

A viagem prosseguiu nos Estados Unidos, com as experimentações do, em termos discográficos, muito produtivo James Ferraro. Ao ouvir o que se julgava ser uma intro, com um som metalizado lento e baixo e uma voz próxima da spoken-word de Laurie Anderson, fica a curiosidade de saber o que iria acontecer a seguir. Vinte minutos depois já não havia dúvidas: a suposta intro era, na verdade, a essência do concerto. Pode haver algo de conceptual na criação artística (ouvimos dizer que é a visão da personagem dos toques de telemóveis e nós acreditamos), mas resulta bastante desconexo, repleto de quebras. A acompanhá-lo, está uma projecção visual relativamente discreta e que inclui uns corpos celestes. Aproveitando a ideia astronómica, dir-se-ia que seria a banda-sonora ideal para uma longa e rotineira missão espacial, em que a noção de tempo ganha outros contornos. Só que estávamos no Planeta Terra…

Numa noite até aí pouco estimulante, entre o desconforto e a manifesta falta de chama, o fecho ficou a cargo do trio portuguêsNiagara, num DJ set que à partida misturaria toques africanos com house e techno minimal.