O terceiro dia da edição de 2011 do Jameson Urban Routes prometia testar a resistência do Musicbox a material altamente explosivo, com a expectativa a girar sobretudo em torno da terceira passagem dos HEALTH pelo nosso país, depois das actuações em 2008, no Porto, e em 2010, tanto na invicta como na capital.

Foi também do Porto que viajaram os Throes, aos quais se juntaram os The Shine, naturais de Luanda, para incendiar a sala lisboeta e abrir caminho aos HEALTH. Não é novo mas não cansa dizê-lo: esta é a fusão mais irresistível e bombástica que vimos nascer nos últimos tempos e o seu pavio é bastante curto. Os portuenses trazem os riffs, as texturas, os ritmos e o peso – afinal de contas, o rock. Os angolanos juntam-lhe o kuduro e emprestam as vozes, o carisma e o animal de palco que transportam consigo, encarregando-se de agitar a plateia. Juntos unem dois estilos em teoria distantes mas que reagem como fogo e gasolina. Depois do seu concerto no Milhões de Festa deste ano, ficou o desejo de os ver actuar à noite, com mais público, sem o calor sufocante e esta era a oportunidade ideal para testemunhar todo o potencial desta inspirada mistura.

Pois os The Shine somados aos Throes responderam exactamente como que se esperava e comprometeram-se a fazer a festa desde o primeiro minuto. Garantirem desde cedo que ninguém os iria parar e de facto ninguém o fez, nem tão pouco resistiu ao contágio, de tal modo que, ao terceiro tema, já tinham dominado as vozes do público e colocado quase todos os corpos a mexer. Segundo eles, “o pessoal de Lisboa dança bué”, o que os levou conceder aos lisboetas uma música “especial”. Ofereceram muita batida e toneladas de animação em cerca de meia hora verdadeiramente frenética. O seu álbum está para breve e será curioso ouvir se esta simbiose explode com a mesma intensidade fora do palco.

O fogo estava ateado e os norte-americanos HEALTH logo surgiram para não o deixar morrer. Eles são rock, são punk, são noise e experimentam até não poderem mais: são o que bem lhes apetece e tocam-no bem alto, sem escrúpulos. O concerto desta noite não foi excepção e o arranque deu-se ritmado e a todo o gás com Nice Girls, do seu registo Get Color, lançado em 2009. Logo de seguida saltaram para o seu longa-duração de 2007, com o nome da banda, através de Zoothorns. Aliás, o pingue-pongue entre os seus dois álbuns de originais foi constante ao longo de um alinhamento onde couberam ainda dois temas novos, ainda sem título, e a sua conhecida versão de Goth Star, dos Pictureplane.

A primeira vaga de euforia chegou com Crimewave, tema que na sua versão remisturada com os Crystal Castles ganhou uma enorme visibilidade mas que, aqui entre nós, na versão dosHEALTH é bem superior. Die Slow fez jus ao nome e abrandou o andamento para ritmos que pareciam tender para o industrial. De resto, num set bastante equilibrado, os californianos operaram de forma perfeita a oscilação entre o peso, que trouxe para a plateia agitação e insanidade inevitáveis, e sonoridades mais arrastadas e melódicas, que impunham ao público movimentos de corpo mais suaves e prolongados.

À imagem dos concertos anteriores, restringiram-se à comunicação mínima com o público, já que a atenção estava totalmente depositada na performance, que foi nada mais do que brilhante.Tabloid Sores trouxe de volta a dureza e os ritmos mais agressivos, estimulando novamente a dança descontrolada nas linhas da frente da plateia, que viria a ter outro pico de entusiasmo ao som de We Are Water. Com um encore pelo meio, houve ainda espaço para mais um tema tendencialmente melódico, USA Boys e um final do tamanho de um dinossauro: Triceratops. Soube a pouco, diziam alguns, terminado que estava o concerto bastante curto (menos de 50 minutos).

Seja como for, é inegável que os HEALTH nos entupiram os ouvidos com ruído de alta qualidade e nós agradecemos e clamamos por mais. Se faltassem provas, tivemos a confirmação absoluta de que não se reduzem ao fenómeno que se gerou em seu redor, mostrando que estão de óptima saúde para sustentar o seu percurso e fazer desabar muitas fronteiras entre estilos. Finda esta descarga, o DJ londrino Sam Shepherd, sob o nome de  , encarregou-se de dar seguimento à noite, agora na sua vertente clubbing, invadindo o espaço meio despido de público com a sua mescla de hip-hop, soul e electrónica, ao qual se seguiria ainda o DJ português Mike Stellar.