A desumanização imposta por uma grande cidade transporta consigo uma inevitável solidão. A sul do Tamisa, no cárcere do betão e de um metropolitano que fala ao subsolo em graves frequências, esse isolamento manifesta-se plenamente na alma criativa de Burial e de um James Blake que decerto não mitiga o legado de Untrue.

Não foi por mero acaso que o jovem produtor decidiu apadrinhar com o seu nome o também seu álbum de estreia. Aquilo queJames Blake nos brandamente anunciou em 2011, por entre os plácidos socalcos do seu post-dubstep, foi a sua própria despersonalização e isolamento – apenas confessável às quatro paredes do seu estúdio, num claro reforço da introvertida personalidade de Blake. Substituindo uma realidade onde o smog ampara os edifícios de Canary Wharf, o músico criou uma banda sonora com dotes de auto-psicanálise e que por certo não aguardava a popularidade que cedo viria a ganhar.

É com essa variável, a da reputação, que Overgrown se vê obrigado a jogar. Uma vez mais, o título não transporta em si ingenuidade e alumia-nos o caminho: James Blake é, volvidos dois anos, um homem diferente e um compositor inevitavelmente amadurecido pelo tempo. O admirável aperfeiçoamento das suas técnicas de produção fica por demais ilustrado logo nos dois temas de abertura: Overgrown e I Am Sold envolvem-nos numa mansidão nostálgica, feita de poderosos mas delicados graves, à qual se junta a sua voz inundada de soul. Os subtis e norte-altânticos sintetizadores mostram-se revigorados e afrontam-nos o paladar com um travo 80s em Life Round Here, abrindo passagem para a chegada de RZA. O rapper nova-iorquino, imortalizado nos Wu-Tang Clan, irrompe Take A Fall For Me versando melancolicamente e Blake acolhe-o com instrumental mestria e versatilidade.

É, aliás, na outra colaboração recebida por este disco que o londrino mostra essa sua nova faceta desmultiplicadora: Digital Lion, em união com Brian Eno, desestrutura-se numa erupção experimental, feita de rasas e opressoras frequências e de um ritmo longe do linear downtempo; a abordagem espande-se emVoyeur: os sintetizadores vertem psicadelismo, fortalecendo um build-up capaz de arrancar reverência em qualquer pista de dança. A despedida faz-se sob a candelária de Our Love Comes Back – o envolvente sussurro de um britânico regressado ao seu habitual padrão, onde a vibração arrancada pelo baixo nos relembra, mais uma vez, o soturno pulsar de Londres.

À encoberta anomia do disco de estreia, sucede-se um Overgrown em que os confinados espaços de 2011 destapam algumas das suas janelas, respirando outros fulgores. Natural: James Blake é, pelos dias que correm, um indivíduo cada vez menos delimitado.