Cantavam os Boomtown Rats, com o jeito idiossincrático de Bob Geldof, que segundas-feiras não são dias para se gostar. Se calhar, porque é o dia mais idiossincrático da semana. Tudo começa cedo demais, todos os trejeitos que nos rodeiam, sejam nossos ou dos outros, saltam à vista e fazem-nos espécie. Vocês sabem, aquelas coisas que nos fazem sentir que as segundas-feiras não valem mesmo a pena. É quase sempre assim. Digo quase, porque segundas-feiras há, em que somos agraciados com a vitalidade e obra de gentes como James Blackshaw e Nancy Elizabeth, tão idiossincráticos como as segundas-feiras.

Antes de entrar para a sala do Maria Matos, apercebi-me que ao longo dos últimos cinco ou seis anos – altura em que deitei mãos aSunshrine – tinha criado uma imagem de James Blackshaw que às tantas nem correspondia à realidade. Vá-se lá saber porquê, consegui juntar uma aura xamânica a um George Harrison vestido com as roupas do Ravi Shankar enquanto tripava em ácidos. Ou fumava erva, ou comia cogumelos. A substância variava conforme os humores e paisagens que Blackshaw constrói (o panorama verde, húmido e enevoado de todo o Reino Unido) com a destreza-mor ao alcance de tipos como John Fahey (campos de algodão ladeados por prisioneiros condenados a trabalhos forçados) ou Jack Rose (que tocava como ninguém as searas de trigo, pradarias e pântanos dos EUA).

Esta imagem que se foi formando – que acreditem, tinha mais de heróico que de homo-erótico – foi agradavelmente desfeita quando Blackshaw subiu ao palco. Rotundo, com duas minis (quem é que lhe deu a beber Sagres?) e um sorriso que revelava tanto de timidez como de inocência – o pobre rapaz só se estreou nas lides das tours em 2005 – e que se fôssemos julga-lo por isso, ninguém diria que este iria ser o homem que nos iria guiar pela viagem mais tranquila que o Maria Matos fez este ano.

A idiossincracia estética de Blackshaw – munido com as doze cordas que ressoam de um mundo que não é este – é totalmente sentimental. Não obedece a uma ortodoxia (nem podia) e todas as ideias e estruturas surgem do seu interior. A catarse que se cria não só nele, mas também em nós, ajuda a que surja uma ligação quase espiritual com as suas harmonias. Harmonias ricas, fartas, sentidas e extremamente pictóricas. É assim que se monta uma banda-sonora perfeita, de cores vivas e que ao mesmo tempo pintam uma narrativa indelevelmente bucólica, romântica e melancólica. Melancolia essa que ia sendo acentuada pelo calor que fazia sentir na sala do Maria Matos, mas o seu ar de serenidade embalava-nos com ele. A melancolia sabia bem, soava bem e não parecia assim tão distante daquela que Carlos Paredes evocava – que de resto, Blackshaw disse conhecer e admirar por causa de uma passagem por Portugal.

Com The Glass Bead Game e All is Falling à cabeça, as viagens faziam-se por caminhos que iam beber tanto ao drone como ao minimalismo de pessoas como Arvo Part, mas sempre com a capacidade sobre-humana de fazer surgir diante dos nossos olhos locais que não conhecemos de lado algum, mas que nos trazem um conforto tão familiar como a casa em que crescemos.

Um olhar mais atento a Blackshaw servia para que nos embasbacássemos perante a coreografia exímia, precisa, única até, que os seus dedos mais do que ensaiar, apresentavam ao mundo. Eram eles os responsáveis por criar a atmosfera de reverberação etérea, cheia de tons e sub-tons que sublevaram o nosso interior naquela noite. Se uma comunhão de estados de espírito era possível, foi atingida na segunda-feira e com direito a uma ovação de pé que antecedeu da melhor forma a subida de Nancy Elizabeth ao palco.

Tímida e nervosa, tal como Blackshaw, esta inglesa de canções cruas e despidas, foi responsável por dois momentos de grande cumplicidade em palco. Primeiro às custas de um tema instrumental, de natureza e graciosidade folk, com Blackshaw na guitarra e Nancy no piano; depois, com Blackshaw ao piano e Nancy na guitarra e na voz, foi-nos valentemente imposta Battle and Victory, com esplendor e ritmo marcial e uma carga dramática agravada pela voz semi-operática de Nancy. Foi tempo de nos despedirmos do bardo e ficarmos com Nancy, uma agradável personagem que se mostrou bem mais conversadora que o seu compatriota e com enormes doses de bom humor. Entre “este calor está-me a pôr demente” e “nem sei que horas são, se calhar até já devia ter saído de palco”, Nancy apresentou músicas novas e antigas, carregadas de histórias de amor e desamor.

Ao contrário do que se ouve em disco, as canções desta inglesa transformam-se em palco. São aquele caso raro em que, despidas de produção e rodízios instrumentais, ganham mais carga, mais vida. E para além disso, a sua crueza quase ingénua, crivada de apontamentos vocais que por vezes faziam lembrar Linda Perhacs, ajudaram a que o calor se suportasse um pouco mais e que, afinal, a visita da inglesa fosse mais aprazível do que esperávamos.

É verdade, no entanto, que sofreu com a entrada de palco numa altura pós-sonho, do qual preferíamos não ter saído. Tal e qual como quando às segundas-feiras de manhã o despertador toca e o que queremos é dormir mais. Mas depois, meio acordados meio estremunhados, apercebemo-nos de que o sonho foi um dos mais graciosos e bonitos que já tivemos. Tal qual esta dupla de ingleses.