Jack White era um redman, sobretudo enquanto membro da banda que lançou o ícone rock cuja melodia é cantarolada por plateias futebolísticas, com consciência de que uns tais de White Stripes são a banda de Seven Nation Army. Entretanto, andou metido em projectos paralelos, dos quais se destacou The Racounters. Na carreira a solo o músico decidiu ser um blueman. A diferença é visual, a música não é significativamente diferente: rock em que guitarra trovejante é a heroína da secção rítmica, embora o órgão e o baixo assumam um protagonismo antes invulgar. Torna-se difícil dissociar Jack White do compositor dosWhite Stripes, mas a preocupação estética revela a vontade do músico afirmar-se para além da sua antiga banda. O azul com que se apresenta não é um azul qualquer, mas um azul cuidadosamente seleccionado, entre Blue Velvet e Yves Klein.

O primeiro registo da fase azul foi “Blunderbuss”, no qual Jack White provou que a guitarra é parte integrante do corpo e que apenas traz vantagens à sua vida artística. A partir do momento em que se nasce com uma guitarra, dedilhá-la é hábito quotidiano e sobra espaço para outras experiências. Com “Blunderbuss” White confirmou o seu génio criador de rock’n’roll, muito além do domínio da guitarra. Rockalhada à la Jack White, sem singles com o sucesso comercial de outrora, mas com espamos melodiosos facilmente identificáveis com o músico – a voz ajuda, claro.

Em “Blunderbuss” escuta-se tudo o que se espera e se reconhece no músico. No segundo disco, “Lazaretto”, as agradáveis notícias são as diferenças. O álbum é mais arriscado e constitui-se como um grande riff para Jack White consolidar o seu estatuto de uma das estrelas rock mais excitante(s). Com receio de que a sua carreira se decomponha em partes mórbidas, Jack White entra em delírio em alguns momentos de “Lazaretto” – que é como quem diz hospital de leprosos em italiano. Os 40min de visita passam por alguns devaneios que, na maioria das vezes, correspondem ao que de melhor há no disco, como é o caso de conciliar a esquizofrenia eléctrica e a irreverente percussão com a pontualidade orgânica e a campestre forma de cantar, sendo a faixa inaugural o melhor exemplo. Em “Three Women” White inicia um jogo de pára-arranca entre órgão e baixo, põe-se a cantarolar e ao fim de 3min passa-se, aplica um riff introdutório electrizante e com a bateria em ritmopunk-hardcore apela a uns segundos de mosh pit; por fim abranda e, certamente, esboça um riso de louco saciado. No tema “Lazaretto”, o segundo, mantém-se o pretensiosismo incomensurável de Jack White, em que o músico e a sua guitarrarappam ao estilo Jack de la Rocha; o baixo e a bateria são os amigos de longa data que ora se juntam em uníssono para o coro denso, ora criam intervalos para a guitarra divagar.

No seguimento desta linha alucinante estão “High Ball Stepper” e “That Black Bat Licorice”. Porém, os elementos não estão tão próximos e revelam-se, em determinados momentos, longe do epicentro rítmico.

Num registo distinto escutam-se outros momentos que confirmam a clara inspiração do compositor. Canções country de uma simplicidade contraditória com o rock visceral mas com o mesmo risco implícito. Em “Temporary Ground” as cordas conduzem imediatamente a viajar no tempo, e em “Entitlement” recuperam-se alguns anos em relação ao presente. “I Think I Found The Culprit” e “Want and Able” terminam o disco e ambas deixam refrãos na memória – belíssimas baladas. Em “Would You Fight For My Love?” o órgão sepulcral e a percussão embaciada remetem para os créditos iniciais de um projecto de Jarmush, que depois libertam a guitarra para vampíricamente sugar o que resta da sanidade ao rock.

“Just One Drink” e “Alone In My Home” são canções indie directas que soam bem, com enfâse na letra, mas que se dissipam no atrevimento do conjunto do álbum.

Jack White continua a demonstrar que é ávido de explorações rítmicas. Com “Lazeretto”, sem perder a lucidez física, traçou uma nova encruzilhada bem sucedida.