A folk é a língua dos escritores de canções. Sam Bean, senhor Iron & Wine, não anda por acaso a compor algumas das melhores canções deste século. Há tempo suficiente pela americana, de guitarra ao colo a encantar com a simplicidade do que, despido, encanta, o cantautor norte-americano tem esculpido de forma incessante belas silhuetas, canções bonitas e não raramente cativantes. Mas, à medida que a sua barba e o seu cabelo iam crescendo, também a vontade de subir a parada se ia tornando evidente. O ponto de exclamação nesse desejo chama-se Ghost on Ghost – aquilo que, antes, era um piscar de olhos ao soul, ao jazz e à formula que agora apelidamos de standards, é agora a menino dos olhos de Bean, que vai flirtando com a pop bem talhada.

Kiss Each Other Clean, ainda a nu, já dava a entender o caminho que iria ser trilhado nos próximos tentos do norte-americano. Canções como Glad Man Singing já revelavam uma alma típica do gospel. Os aromas espalhados no disco de 2011 tomaram a proporção de odores intensos e inebriantes. A bateria, o batimento cardíaco de grande parte das canções de Ghost on Ghost, não evita a taquicardia e, em canções como Low Light Buddy of Mine eSingers and The Endless Song serve de mote para a veia jazzística pulsar, ora com arranjos de sopros, ora com os coros típicos da música negra. Sam Bean, enquanto vocalista, também eleva a fasquia interpretativa deste álbum, fazendo jus, assim, a canções mais ricas, menos lineares, em que uma boa voz, por si só, não faria a diferença; a de Bean não se limita a encaixar na harmonia, destaca-se.

De lado, contudo, não fica a simplicidade que sempre caracterizou nas canções de Iron & Wine: Sundown (Back in the Briars), Winter Prayers e, claro, a faixa de abertura Caught in the Briars, são disso exemplos. Esta última, ainda que enriquecida em arranjos típicos da pop, quase dispensáveis mas inequivocamente essenciais, vive da sua frugalidade, sublinhada por um toque de piano aqui e ali, uns metais a alegrar as melodias acolá, até que o epílogo abraça o jazz num ruído harmoniosamente improvisado. Mas a música, essa, é feita da estrutura mais básica e, por isso mesmo, a que mais toca. A que se segue, The Desert Babbler, não deixa de nos lembrar uns Beatles pelos seus coros e de nos rasgar os sorrisos na cara.

Ghost on Ghost não é sorumbático como o título deixa a entender. A primavera respira-se neste disco e os pássaros que outrora desejaríamos ouvir chilrear cantam pela voz de Sam Bean e dos seus coristas. O mais incauto dos ouvintes vai cair no embuste. As mentiras, quando inocentes, podem ser tão bonitas e a dos Iron & Wine assume diferentes formas: a de que continua folk, a de que continua um homem só, a de que a primavera dispensa aves. Fomos todos felizmente enganados. Por outro lado, a sinceridade do disco é evidente: Sam Bean é um grande escritor de canções e faz jus ao writer que adorna o seu epíteto de songwriter.