Quando bandas como Mastodon, Baroness ou Kylesa começaram a levar o sludge para terrenos mais progressivos da forma que o fizeram, a malta dos Inter Arma deve ter achado que se perdia uma excelente oportunidade de executar o processo de forma completamente diferente. Que raio é que queremos dizer com isto? Que nem todas as misturas são homogéneas. Sem fazer qualquer juízo de valor – até porque alguns desses álbuns são de elevada qualidade -, nos trabalhos recentes das referidas bandas de Georgia, estas abdicam de muito do peso e sujidade que os caracterizavam em prol de estruturas mais progressivas e sonoridade mais melódica, no fundo criando algo a meio caminho entre as duas sonoridades. Já no que aos Inter Arma diz respeito, fica mostrado que a mistura pode ser bem mais heterogénea, com o peso e a agressividade a coexistir com melodias acústicas sem que nem os primeiros sejam necessariamente suavizados ou os segundos não tenham espaço para se desenvolverem de forma independente.

Já no registo de estreia, Sundown, haviam algumas tentativas de trazer este lado mais progressivo àquilo que era essencialmente sludge com um forte perfume a black metal, um território que tanto os guitarristas como o vocalista exploram mais profundamente nos seus Bastard Sapling. No entanto, é com o novo Sky Burial que as ideias aparecem executadas com uma qualidade superior. Por interessante que fosse a estreia, nada nela nos preparava para o que se ouve por exemplo em The Long Way Home (Iron Gate) eThe Long Way Home: a primeira e grande parte da segunda instrumentais a tresandar a pink floyd fase Shine On You Crazy Diamond, antecedendo uma explosão que nos remete para o black de uns Agalloch. Juntamente com Survival Fires, estes dois temasperfazem um início de álbum avassalador. Em termos estilísticos, o tema de abertura funciona como reverso da moeda em relação às duas The Long Way Home, exibindo desta feita mais proeminentemente o lado sludge dado a variações extremas no seu tempo – tanto mais arrastado do que por exemplo qualquer das três bandas referidas no primeiro parágrafo como com despejos de blast beat pouco usuais no género.

Pese o destaque dado ao peculiar combinar de géneros que serve de base ao álbum, este é apenas o meio que o quinteto de Richmond utiliza para chegar ao seu fim, e “fim” é mesmo a palavra apropriada para descrever o cenário aqui evocado. As paisagens apocalíticas conseguem espelhar-se tanto pelos momentos acústicos como nos assomos de violência, ora descontrolada, ora cirurgicamente monolítica – o turbilhão que é ‘sblood até parece não se conseguir decidir por uma das duas formas de ser pesado, sendo a resolução adiada para o riffalhão de abertura deWestward. A resolução de todo este acumular de tensão vai sendo sucessivamente adiada até que chega Sky Burial para terminar o álbum numa conjunção de todas as suas virtudes.

Nada do que os Inter Arma fazem neste segundo álbum é particularmente inovador nos seus elementos, surpreendendo no entanto pela forma como estes são combinados e pela considerável maturidade de escrita, sobretudo nas gigantes The Long Way Home e Sky Burial. É que para todos os efeitos, o tipo de som que tentam fazer não é a coisa mais simples do mundo e facilmente poderia ter descambado em pretensiosismo ou falta de de urgência. Que tenham evitado todos estes perigos ao segundo álbum é merecedor de rasgados elogios.