Convém desde já dizer que Guiltless não é para qualquer um. Nem mesmo aqueles que habituados estão às maciças composições de sludge/doom poderão estar aptos a ouvir o que os Indian têm no seu quinto álbum. Não há nada de belo, não há concepções bucólicas e etéreas, não há atmosferas épicas roubadas aos Neurosis. Estes homens de Chicago voltaram a estúdio para compor, isso sim, o seu trabalho mais perverso, dotado de um peso capaz de ombrear com a tonelagem que os Noothgrush ou os Grief produziam nos anos 90.

A experiência que se obtém ao ouvir Guiltless nos auscultadores chega a ser incomodativa. A cabeça começa a denotar sinais de cansaço e de, até, alguma náusea – tudo provocado por escabrosos riffs que tendem a ecoar córtex cerebral adentro, de forma incessante. Mas não só: o ritmo, claro, é lento, com pontuais quebras e raras acelerações. E a voz… A voz… O falecido Johnny Morrow, dos Iron Monkey, é a talvez a garganta mais inquietante do sludge, mas o tom humorístico que muitas das faixas da banda inglesa tinham acabava por lhe conferir uma áurea menos áspera. Já Will Lindsay (ex-Wolves In The Throne Room, ex-Nachtmystium e ex-A Storm of Light) e Dylan O’Toole não têm qualquer característica que lhes retire a dimensão tenebrosa dos seus gritos.

Vestígios de sanidade psíquica não se encontram. Guiltless é uma violenta experiência que nos coloca no mesmo comprimento de onda de cinco indivíduos que parecem ter expurgado todos os seus males no estúdio, com a ajuda do igualmente não salubre Sanford Parker – o produtor do disco e membro dos Nachtmystium e dos extintos Minsk. Se Dopesick dos Eyehategod começa com Mike Williams a cortar-se com uma garrafa e a espalhar o seu sangue pela sala de gravações, enquanto grita de forma desenfreada,Guiltless nem por isso é menos demente. É um choque de almas atormentadas, que faz muitos álbuns ditos extremos parecerem registos do Coro de Santo Amaro de Oeiras.