Prestes a editar um novo disco, os Iceage deslocaram-se a Leiria para aquilo que no final se entendeu como um teste às novas malhas. Ao contrário do que se suponha como o mais provável, os dinamarqueses optaram por esquecer na totalidade os dois originais editados e acolher apenas composições que se prevê virem a ser englobadas no novo longa-duração que, de resto, está prometido para o decorrer deste ano.

A forma como conseguiram, em apenas dois álbuns, exprimir tamanha fúria, constituiu uma virtude inseparável dos Iceage. Se em disco se mostravam rancorosos, ao vivo pareciam estar sempre prestes a explodir, encarnando na perfeição aquele ar arruaceiro que transportam na sua atitude. Contudo, e, tendo em consideração o conjunto de músicas apresentadas, esse período poderá estar arrumado. Fruto do crescimento? Fruto da idade? Não o conseguimos dizer. No entanto, não será de estranhar que estes quatro, outrora miúdos de 17 anos nos tempos de “New Brigade”, estejam de momento empenhados em traduzir o seu crescimento musical noutro tipo de sonoridade.

Iniciando o compêndio com “On My Fingers” – malha ainda por editar -, encarreiraram por “To My Comrades”, versão dos sul-africanos Bahumutsi Drama Group, partindo depois para um conjunto de faixas novas e, mesmo que Elias Rønnenfelt continue com aquele olhar constante de desafio e de quase desaprovação na direcção do público, não há como esconder que parece vir por aí um percurso menos raivoso e rancoroso do quarteto, mesmo que se sinta que a estrutura baseada no recorrer constante ao turbilhão possa não estar completamente abandonada e, “Forever” ou “The Lord’s Favorite”, foram exemplo disso.

Demorando-se no Palco Corpo, pouco mais de 40 minutos e munidos de menos de uma dezena de propostas, os Iceage continuam a apregoar aquela forma a roçar o rasco com que encaram a sua faceta musical. De facto, toda aquela dissonância e descoordenação que parece tantas vezes provir dos instrumentos e da voz, conseguiu traduzir-se em carisma e diferença, mesmo que do lado do público tenha parecido haver pouco espaço para o compreender. Apesar disso, há que reconhecer que faltou mais javardice e um caos mais impregnado não só na postura, como também nas novidades apresentadas.

A abertura oficial da quinta edição do Festival Entremuralhas foi correspondida na perfeição pelos Ermo. Cada vez mais habituados a estas andanças, ver o duo acaba sempre por ser uma experiência nova e, não é de estranhar que em diferentes concertos possamos testemunhar e absorver diferentes sensações, tal como emitir contraditórias opiniões, muito motivadas pelas palavras e pelo timbre emotivo de António Costa, a par daquilo que elas nos transmitem a cada momentoAdmitindo ser a primeira oportunidade que presenciam na primeira pessoa o festival, os bracarenses aproveitaram para promover “Vem Por Aqui” mas também operaram a pré-promoção de um disco previsto para este ano.

Nem foi preciso muito tempo para, em apenas poucas palavras do tema “Amor Vezes Quatro”, se definir na perfeição aquilo que tão bem apregoam: os testemunhos, as declamações, as histórias. Como tal, “Juntem-se todos que tenho uma história para contar” acabou por traduzir inicialmente aquilo que se espera de um concerto dos Ermo. Também poderíamos dizer o mesmo de “Porquê” ou de “Macau”, berços de sentimentos responsáveis pela criação de uma bolha tão própria em que se envolveram. A tudo isto, juntou-se o facto de Bernardo Barbosa incorporar constantemente melodias entranhadas em beats que, com as palavras e jeito cambaleante de Costa, serviram para que esta tenha sido mais uma nova demanda no contacto com os Ermo.