Falar sobre os amores e os desamores faz furor, ou, pelo menos, ainda está na moda; não tivesse sido, esta semana, o Dia de São Valentim. Quem parece tomar vantagem disso são os Hurts, que, ontem, terça-feira, regressaram ao nosso país, para uma data única, no Porto.

Hard Club estava, então, a abarrotar por todos os lados: gente, gente e mais gente, de todas as idades, com especial enfoque para o público feminino, que, aliás, na opinião do grupo de Manchester, estava bem representado pelas beautiful ladies, como confessou Theo Hutchcraft à sua audiência. Um fenómeno da pop moderna, os Hurts não inovam nem um bocadinho – é que eles passaram pela universidade do urbano-depressivo onde os Joy Division são os reitores. Ninguém diz que não foram aprovados com distinção, mas os pupilos não conseguem atingir os mestres, até porque preferem outras vias de expressão:  a atitude romântica que vemos em qualquer cantor do dito género (se fossem portugueses, poderiam bem figurar do cartaz das festas da aldeia de Portunhos…), a entrega de rosas brancas ao público, os ‘clímax’ épicos e as demonstrações de sentimento ‘excessivo’, quase forçadas. Mas, como não são, até lhes damos o desconto, porque, passado o choque da pirosice, há, realmente, bons pormenores na música dos britânicos.

Alvo de uma produção atenta, Happiness, o disco de estreia destes senhores, é o verdadeiro protótipo da pop: vocais certinhos, momentos altos, letras melodramáticas, refrões catchy (quem é que já não ouviu a canção Wonderful Lifepor aí?) e, até, óptimas camadas instrumentais, nas quais os violinos são uma preciosa ajuda. Ao vivo, os Hurts são muito assim, também. Acrescentando, contudo, uma teatralidade e sensualidade que, por exemplo, o vídeo de Wonderful Life já antevia. Ou seja, tudo é pensado, como nos bons “produtos-pop”, desde o guarda-roupa com direito a músicos «engravatados» ou atitude estática em palco de alguns membros da banda.

Desfilando o seu álbum, numa actuação que pecou pela sua homogeneidade, temas como Verona, Evelyn ou Stay fizeram, literalmente, o chão do Hard Club tremer, havendo – dado o grau da histeria feminina na sala – momentos em que pensei se não teria entrado, por engano, num concerto dos Backstreet Boys… Com tudo isto, sendo-se ou não fã do género, é impossível desdizer esta actuação: os Hurts são competentes, não falham e o seu ar afectado pela paixão com brilhantina no cabelo até lhes dá alguma piada. Nota negativa, porém, para o jogo de luzes da sala – excessivo, perturbador e, em nada, solícito para com a actuação.

Cabia aos The Eleanors a tarefa de aquecer o palco para os Hurts e, pela reacção, ninguém foi para casa desiludido. Em primeiro lugar, saliente-se que a sala 1 do antigo mercado Ferreira Borges estava já praticamente cheia quando este grupo da Maia pisou o palco. Em segundo, o público conhecia as letras e reagia bem à sonoridade da banda que, como os britânicos, também estava vestida a rigor para a ocasião. Durante meia-hora, se fechasse os olhos, diria que estava num concerto de Editors, com uma aparição dos The Killers, já no final do espectáculo. Não quero, com isto, dizer que foi mau, pelo contrário. Os Eleanors são um projecto que tem pernas para andar, mas que precisa, todavia, de amadurecer e resolver alguns problemas na secção ritmíca e vocálica.